Moradia e transporte público

Texto originalmente publicado no blog da FIST (Frente Internacionalista dos Sem Teto)

Não é de hoje que o problema de transporte e moradia se acompanham. Isso acontece desde a Revolta do Vintém, em 1880, quando o Império aumentou a taxa sobre a passagem dos bondes em vinte Réis, o povo fez uma revolta popular e conquistou a redução. E no início do século XX, quando o prefeito Pereira Passos fez uma reforma urbana, que passou a expulsar a população mais pobre e trabalhadora do Centro, através do despejo de cortiços. cortiços, a população mais pobre, trabalhadora, em sua maioria negra. O governo reprimiu o levante que o povo fez contra isso, conhecido como a Revolta da Vacina, por ser contra a imposição normas autoritárias, como a vacina obrigatória. Isso é um momento muito importante para a nossa cidade, foi quando lutamos para viver no Centro da cidade. Ali há mais serviços, mais empregos e condições de vida. As pessoas tiveram de ir morar na periferia da cidade, distantes do centro, alugando imóveis dos ricos e proprietários.

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Favela da Providência, formada ao lado do Ministério do Exército, no início do século XX

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Até hoje, é uma jogada dos empresários transportar a multidão de trabalhadores que se deslocam da periferia ao centro todos os dias e ainda cobrar tarifas. Desde os bondes, as cooperativas de lotações, passando pelas permissionárias até as concessionárias de hoje, os empresários lucram explorando a mobilidade pela cidade. E por conta disso, muitos lutam pelo direito à cidade. As favelas, que são as ocupações de morros, são um exemplo dessa luta e há anos se estabelecem como uma alternativa contra a desigualdade, para viver perto das zonas centrais, onde há mais emprego e acesso a direitos. A mesma população negra e trabalhadora, que lutou contra a escravidão, pelo transporte e contra a expulsão do centro, hoje luta para usufruir e se locomover pela cidade.

Favela de Manguinhos, na Zona Norte, luta contra a violência policial e contra a remoção de casas pela instalação da estação de trem.

Favela de Manguinhos, na Zona Norte, luta contra a violência policial e contra a remoção de casas pela instalação da estação de trem.

O lobby do transporte público está junto com o mercado imobiliário, pois enquanto controlam a circulação de pessoas e encarecem o acesso à cidade cobrando tarifas, os imóveis se valorizam comercialmente. Assim, a prefeitura de Eduardo Paes tem promovido políticas de transporte, que promovem remoções. Já removeram a Vila Recreio II, pretendem remover a Vila Autódromo e a Vila União de Curicica, para a expansão do BRT Transolímpica. Ao mesmo tempo, promovem a remoção de diversas favelas. Isso ocorre também no aumento do custo de vida, pela regularização autoritária nesses locais via UPP (Unidades Policiais Pacificadoras), que encarecem as contas de luz, água, aluguéis e outros serviços. Assim, muitas famílias são removidas e obrigadas a morar em locais distantes do Centro. E promovem cortes de linhas de ônibus, tidas como não lucrativas, provocando a lotação, que trazem mais lucros aos empresários, com mais pessoas dentro de cada ônibus, pagando mais tarifas e girando a catraca. O BRT Transoeste já apresentou saturação, levando 17 mil passageiros por hora, mas a capacidade é de 15 mil.

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A instalação dos BRTs Transcarioca e Transolímpico, tem promovido a remoção de casas e a revolta e organização popular dos moradores.

São os trabalhadores que constroem a cidade, tudo aqui é fruto do nosso trabalho e deslocamento. No caso do transporte público, o absurdo dos empresários cobrarem tarifas é que não são os usuários os únicos beneficiados. Patrões também se beneficiam com milhões de pessoas se movendo pela cidade indo trabalhar ou comprar mercadorias. No entanto, os empresários não pagam nada por isso e ainda lucram cada vez mais. Quem se beneficia disso é o lobby do transporte público, que especulam em cima dele, como os 31 empresários desviando R$200 milhões para o HSBC da Suíça, incluindo a família Barata, que é dona do Rio Card e lucra com as “baldeações” dos usuários, pago pelo governo. E também o mercado imobiliário, que tem seus terrenos valorizados com o acesso dificultado para moradores de periferia, como ocorre na Zona Sul da cidade. Tal dificuldade é promovida pela violência policial também, como ocorreu no despejo do imóvel abandonado de Eike Batista: a PM agrediu as famílias sem-teto ocupantes, incluindo uma mãe que pariu seu filho durante o ataque.

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Ocupantes de prédio abandonado da falida EBX são reprimidos brutalmente.

Resistência contra o despejo da Favela do Metrô, perto da favela da Mangueira. Na zona norte.

Resistência contra o despejo da Favela do Metrô, perto da favela da Mangueira. Na zona norte.

As lutas por transporte e pela moradia devem caminhar juntas. Em Junho de 2013, a maior revolta popular dos últimos 20 anos, conquistou a redução das tarifas do transporte público em mais de 100 cidades no Brasil. Isso só ocorreu porque a mobilidade urbana é fundamental para a vida nas cidades. Principalmente para a população mais pobre e moradora das periferias, que tem a locomoção como o terceiro maior gasto e é pagante de mais da metade do valor arrecadado pelos empresários com as tarifas. É preciso que o povo lute pelo direito à cidade, desde ocupando e reivindicando moradia, como pelo controle no transporte público, por mais linhas nos bairros e pela TARIFA ZERO. Ela é possível e combate a especulação imobiliária, basta financiar o transporte gratuito do povo com mais impostos sobre as maiores fortunas, como imóveis abandonados de empresas públicas ou privadas.

Por uma vida sem catracas!
Pelo direito à cidade!

MOVIMENTO PASSE LIVRE – RIO DE JANEIRO

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Uma resposta para “Moradia e transporte público

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