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AUTONOMIA E LUTA CONTRA A TARIFA, O QUE ESPERAR?

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Passados dois meses do mandato que reelegeu Dilma, o Partido dos Trabalhadores (PT) e seus dirigentes vêm, gradualmente, apresentando sua tática e o que estão dispostos a realizar para completarem 16 anos seguidos no poder, como sujeitos ativos na gerência do estado capitalista brasileiro e seu contínuo investimento (neo)desenvolvimentista, no nível local, regional e quiçá internacional. Em seu primeiro pronunciamento público após vencer a eleição, a presidenta Dilma afirmou estar disposta ao diálogo com diversos setores da sociedade. Na atualidade, isso já apresenta alguns de seus personagens e objetivos, fazendo parte da manutenção estratégica da conciliação de classes, no bojo das desigualdades e injustiças vivenciados pela maior parte da população. No entanto, uma mudança que tende à direita vem ocorrendo nesta estratégia, e é possível ser observada nos rumos que o governo vem trilhando.

Diálogos à direita – Dinheiro Público, lucro privado

Alguns elementos da tendência direitista do governo podem ser observadas na escolha política de ministros que simbolizam o capital em algumas de suas esferas mais lucrativas no Brasil, como é o caso de Katia Abreu na Agricultura e Joaquim Levi para o Ministério da Fazenda. A primeira ligada à bancada ruralista e ao agronegócio, que promovem a grilagem de terra, assassinatos de trabalhadora(e)s camponesa(e)s e indígenas; o segundo, que já participou do FMI por 4 anos, chefiava o setor de investimento do Bradesco, banco privado, que no ano de 2014 teve o 3º maior lucro financeiro da historia dos bancos no Brasil, superior a 15 bilhões de reais. No dia 27 de Fevereiro deste ano, o Ministério do Trabalho informou alterações nos direitos para solicitação do seguro desemprego. Dentre elas, jovens trabalhadores que quiserem receber o benefício pela primeira vez deverão ter trabalhado pelo menos por 18 meses nos últimos 2 anos. Antes o tempo obrigatório de carteira assinada era de 6 meses. Caso exerçam sua profissão por 17 meses e sejam demitidos, não contarão com nenhum recurso para sobreviver até conseguir outro emprego.

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A maior parte das grandes e médias cidades brasileiras tiveram aumentos nas tarifas de ônibus, logo nos primeiros dias de 2015, com o aval de seus respectivos estados e municípios. Um dos argumentos foi o pronunciamento da Frente Nacional de Prefeitos, que alegou que os municípios não têm meios de congelar tarifas por falta de subsídio. Mesmo com a política de desonerações, subsídios e garantias de monopólio lançados pelo Pacto pela Mobilidade Urbana da presidenta Dilma em 2012, feito para favorecer aos empresários. Em disputa com o maior investimento na indústria de automóveis particulares, que a cada 12 reais fornecidos pelo governo federal, 1 real é investido no transporte público. No Rio de Janeiro, a tarifa no modal rodoviário municipal teve o maior aumento dos últimos 20 anos, enquanto nas linhas intermunicipais, barcas, metrôs e trens, já é um dos maiores aumentos da historia.

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Swissleaks

De forma comprovada, o site Swissleaks vazou informações secretas que atestam crimes cometidos por 31 diretores ligados às empresas de ônibus no Rio de Janeiro e revelam parte do patrimônio financeiro não declarados e escondidos em paraísos fiscais, transferidos pelo banco HSBC. Somente Jacob Barata (o maior empresário de ônibus do Rio de Janeiro e um dos maiores do Brasil) e seus parentes, possuíam o equivalente a 176 milhões de dólares. Não se sabe o valor máximo, pois grande parte das informações ainda não está disponibilizada. As contas exteriores e todo este dinheiro não declarado remetem a crimes de sonegação e evasão fiscal sobre seus donos, perante infrações tributárias e penais.

jacobBARATAfilhoCom a mídia cobrindo ou abafando tal denúncia, os governos e a prefeitura ainda não se pronunciaram. A quebra dos contratos de concessão com estas empresas é o mínimo que poderia ser feito. No entanto, a prefeitura de Eduardo Paes prossegue com cortes de linha e de frotas, promovendo remoções de casas e demais medidas para favorecer aos consórcios que monopolizam o transporte público no Rio de Janeiro, com garantia de 20 anos de exploração sob licitações com suspeita de fraude. Um processo lançado pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) foi arquivado em Julho de 2013; apontava formação de cartel, com 4 empresas controlando mais de um terço das ações e empresários que violaram as regras dos contratos, como 12 deles serem sócios de mais de uma empresa, como Jacob Barata Filho. Seu conglomerado, o Grupo Guanabara, controla e fornece mais de 50% das frotas. O município paga a troca de 1.100 ônibus todo ano, fornecendo R$260 milhões. O ex-vereador e ex-deputado Rodrigo Bethlem (PMDB), declarou que recebia propina da família Barata para derrubar sessões, projetos e apoia-lá na Câmara Municipal.

Rodrigo Bethlem: ""Eu fui muito útil pra esse cara na Câmara. Não foi pouco não, muito. Eu derrubei sessão, eu tirei projeto""

Rodrigo Bethlem: “Eu fui muito útil pra esse cara(Barata) na Câmara. Não foi pouco não, muito. Eu derrubei sessão, eu tirei projeto”

Ano após ano, o principal argumento utilizado pelos empresários do transporte para o aumento na tarifa é que seu setor é oneroso e não tem lucro. Dizem: os subsídios não dão conta, inflação aumentou, salário dos funcionários é alto, a frota deve ser renovada, etc… Mas os elementos apresentados compravam o quão milionário e lucrativo é o setor, sem falar na precarização do trabalho dos(as) rodoviários(as) e o sucateamento dos veículos, por falta de manutenção. A TARIFA ZERO demonstrou que pode acontecer em Maricá, depois de Porto Real e Silva Jardim no Estado do RJ. São mais provas de que existir tarifa é uma decisão política dos governos para privilegiar empresas e excluir hoje mais de 37 milhões de pessoas nas cidades, que só andam a pé. E mais 200 mil serão excluídas com os aumentos. A posição do poder público no Rio tem sido de fechar qualquer diálogo: uma ação do Ministério Público questionando judicialmente o aumento para R$3,40 foi negada. Quem está lutando tem sido criminalizado e condenado por contestar a lógica mercadológica deste serviço que deveria ser público, como os 23 processados da operação Firewall e o caso de Rafael Braga.

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“Diálogos” à esquerda

Neste momento, parte da esquerda, incluindo movimentos sociais, centrais sindicais, partidos e ONG’s, dentre outros, vem se articulando em torno do que, inicialmente, foi chamada de “Frente de Esquerda” e agora é denominada como “Frente pelas Reformas Populares”. Embora, em sua Declaração, indique pontos importantes para mobilização e luta em escalas nacionais, algumas perspectivas dessa Frente não soaram muito harmônicas com as pautas apresentadas.

Sem sectarismo, mas analisando objetivamente os fatos atuais, nos perguntamos o que a CUT, que atua como um braço do PT, poderia explicar, por exemplo, na defesa do Eixo 3 desta declaração, que versa sobre ações de luta “Contra os ataques aos direitos trabalhistas, previdenciários e investimentos sociais”. O governo vem atendendo a interesses privados e atacando direitos dos(as) trabalhadores(as). Esta “Central” está afinada com o governo, e assina a declaração. Esta Frente tem articulado de forma equivocada, dentre outras questões, o que eles chamam de “Enfrentamento das pautas da direita na sociedade, no Congresso, no Judiciário e nos Governos”. Como enfrentar as pautas da direita em todas estas dimensões, estando ligados ao governo que já se “endireitou”? O interesse de Lula em defender um retorno aos movimentos sociais e suas bases, pretende preparar sua candidatura para 2018. Sua participação em espaços de mobilização, como esta “Frente”, não tem outro objetivo que não seja o de cooptá-las, a seu bel-prazer

A esquerda não pode dançar a mesma música!

Para que o PT chegasse à presidência em 2002 uma imensa parte da esquerda se mobilizou na campanha pela eleição de Lula. Com a inserção de movimentos sociais, intelectuais, artistas e militantes dentro dos aparelhos do Estado, o governo conseguiu desarticular uma oposição de esquerda ao seu governo. No atual momento a tática de construir “Frentes” e se aproximar de movimentos sociais tem por finalidade  repetir 2002.

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Se existe hoje uma direita tomando corpo, o governo petista tem responsabilidade ao ter buscado em seus mandatos desestruturar a esquerda com repressão, cooptação e manipulação. Antes o governo pregou uma política de conciliação de classes; hoje, assume um viés de classe: a capitalista. Para os movimentos que não tem autonomia como princípio, o cenário político atual será de assédio, porém, seu papel será meramente utilitário, como peões num jogo de xadrez, sacrificados na metade do tabuleiro.

Luta contra a tarifa

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Em 2015, com os novos aumentos na tarifa, novamente a luta se nacionalizou. O Movimento Passe Livre convocou a campanha nacional #ContraTarifa, enquanto diversas cidades convocaram manifestações. No entanto, não há mais o elemento surpresa das grandes marchas de 2013, quando a revolta popular foi o dispositivo que garantiu a vitória contra a burocratização e incitou ações diretas pelas cidades. Os primeiros atos foram duramente reprimidos ou controlados pelo cerco policial, com um claro boicote midiático. Hoje a tática de 2013 chegou a um limite* e a articulação governista é parte dessa previsão. Em São Paulo, o prefeito Haddad(PT) convocou a UNE e outras organizações estudantis, barganhando o recém concedido “passe estudantil” para que esvaziassem a luta contra a tarifa e isolassem o MPL-São Paulo. Como perspectiva de avanço, compas de SP tem apostado em mobilização e atos na periferia**, indo além da revolta e apontando para a organização popular.

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Ato da Luta pelo Transporte do Extremo Sul, com o MPL-São Paulo.

O MPL-Rio de Janeiro convocou os Encontros Contra o Aumento das Passagens, abertos, para que fossem um espaço de articulação de atividades que trouxessem para a agenda da luta a questão do aumento das passagens, em uma tentativa de descentralização. Eles deveriam fazer parte de uma mobilização ampla contra a tarifa mas a prática centralista prevaleceu e o trabalho de base coube quase exclusivamente a nós, pois não conseguimos implantar propostas de horizontalidade e autonomia. Ao mesmo tempo, setores da luta autônoma simplesmente se abstiveram, deixando para nós a obrigação de construção de um espaço horizontal.

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Disputas tomaram o espaço e foi deixada de lado a discussão de tática e mobilização, tendo muito mais importância os pretensos atos grandiosos do que o trabalho de diálogo e informação junto a trabalhadores/as, mesmo com a análise do contexto de forte repressão que temos sofrido em escala crescente desde 2013. Grupos estudantis governistas e anti-governistas atuaram nesta centralização se utilizando de práticas de difamações mentirosas e antiéticas, causando enorme desgaste dentro das reuniões e para o MPL-Rio, que mais uma vez foi posto em um papel central de responsabilidade sobre a luta e cobrado por isso. Garantiram atos com trajetos tradicionais e pouco efetivos, como até a Câmara dos Vereadores. O segundo grupo, ao invés de trabalhar por uma verdadeira superação do governismo e da burocratização da luta, boicotaram propostas descentralizadoras e de ação direta, desviaram o foco para outras pautas – caluniando o MPL de não as apoiar, por priorizar a luta contra a tarifa – mantendo a velha dinâmica que tem isolado a esquerda nas duas últimas décadas, que é a ausência de trabalho de base e de organismos horizontais e populares***.

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Logo depois que o MPL-Rio se retirou dos Encontros, por entender que ali não teria condições de inverter o atual quadro de desmobilização, esse espaço puxou um ato que se iniciou no Tribunal de Justiça, durante a audiência dos 23 perseguidos da operação Firewall, e seguiu até a Bienal da UNE, na Lapa. Locais que politicamente representam interesses completamente opostos, acordados de modo que objetivos específicos fossem alcançados, aparentemente se utilizando da articulação e abrindo mão da luta contra o aumento. Com um número reduzido e específico de pessoas, fica claro que é urgente a mobilização popular para qualquer perspectiva de revogação da tarifa de R$3,40. Tendo a mesma noção centralista, é sintomático que correntes governistas e anti-governistas terminem um ato neste evento com grande investimento financeiro do governo federal, projetado com a presença de ministros e ex-ministros do governo petista, músicos e celebridades caríssimas o suficiente para distrair e cooptar todos para fora da luta. Para o benefício do governismo e dos empresários, a população trabalhadora e desempregada segue acuada e isolada do debate e da luta pelo transporte público. O governismo e o terrorismo de estado atuam com força na periferia, então é ali que devem ser combatidos****. Não é disputando espaços isolados e sem expressão social que venceremos. Enquanto a burocracia do PT se reúne com outras burocracias, devemos nos reunir por baixo, ombro a ombro com o povo, construindo uma base forte em bairros, favelas e periferias, de forma autônoma e independente da conjuntura que vem se configurando, seja contra as ofensivas da direita, seja contra o discurso governista, seja contra as práticas centralistas de vanguardas.

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Ônibus TARIFA ZERO do MPL-Rio pulou carnaval e chamou crianças pra pilotar. No bloco Se Benze Que Dá, da Maré.

Por uma vida sem catracas!
Movimento Passe Livre – Rio de Janeiro

*“Revolta popular contra a tarifa: notas sobre os limites da tática” http://passapalavra.info/2015/01/102196
**“Organize-se! Próximas reuniões abertas e atividades nos bairros!” http://saopaulo.mpl.org.br/2015/01/22/organize/
***“Democracia de base sem trabalho de base?” http://passapalavra.info/2015/02/102335
****“Estado e movimentos sociais” http://passapalavra.info/2012/02/52448

Mais um aumento na tarifa, mais uma jornada que se inicia!

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Mais uma jornada se inicia, que é a luta contra a tarifa de ônibus para R$ 3,40. Em outra nota o MPL-Rio divulgou no que consiste a violência contra a população através desse modelo de transporte público e o que tem por trás na pressão empresarial que é feita para garantir essa tarifa. É um dos maiores aumentos dos últimos 20 anos, assim como ocorreu com os ônibus intermunicipais, trens, metrô e barcas, que já configuram o maior aumento da história. Dessa vez o prefeito Eduardo Paes alegou os gastos com ar condicionado para a sua instalação em metade das frotas até 2016. O pior é que os empresários garantiram tirar 2 mil ônibus de circulação para atingir essa meta, resultando em mais cortes de linhas na cidade e máxima lotação nas frotas atualmente climatizadas mesmo com o insuportável calor de 50 graus no Rio de Janeiro. Ou seja, a pouca frota refrigerada será utilizada para garantir no verão máximo lucro e lotação. Outro argumento que tem sido utilizado para justificar o aumento é a inflação, que é mais chantagem pública para alegar o sucateamento do serviço, devendo recair mais custeio sobre o usuário. Para completar, o prefeito também se pauta pelas gratuidades, que são tratadas como um benefício. Enquanto o passe livre continuar sendo considerado benefício e não direito, as concessões serão tratadas sempre sob ameaça de corte e encarada como justificativa para aumentar a tarifa. Sendo o transporte coletivo, ele deve ser um direito garantido e custeado pelos beneficiados, não pelo usuário.

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Em Novembro de 2014 foi anunciado na mídia o aumento da tarifa, fato que o MPL-Rio já denunciou. Naquele momento, convocamos o I Encontro contra o aumento da Passagem, com o intuito de promover uma articulação entre forças de diversos coletivos, indivíduos e movimentos sociais para tocar ações comuns nessa luta, sendo proposto como um espaço horizontal, apartidário e independente. Sem a projeção partidária de nenhuma sigla ou grupo, mas sem proibir a presença de seus membros. O foco maior é o respeito à autonomia e ao andamento dos coletivos presentes, com a união exclusivamente para a ação. O Encontro é um espaço inicialmente convocado pelo Movimento Passe Livre do Rio de Janeiro, mas é um espaço autônomo, com poder próprio de decisão. Assim, nele houve uma apresentação das propostas e foram encaminhadas algumas atividades públicas, como panfletagens na Central do Brasil. Questões propostas, como a definição de critérios de participação nele, que levaram em conta a composição ou não com coletivos que apoiam a atual base do governo federal, foram adiadas para a sua segunda edição. Essa, posteriormente, ocorreu com um grande esvaziamento, não estando presente as pessoas que propuseram as questões anteriores, o que levou os participantes do II Encontro, por respeito, a não deliberar no lugar delas. Mas deliberou-se ali duas atividades públicas em terminais de ônibus, seguidas de um ato no dia 22 de dezembro. Assim, no momento seguinte, o III Encontro contra o Aumento das passagens serviu para articular a primeira manifestação e estruturar melhor as atividades. As atividades foram reprimidas e seguidas por forças policiais, como na Alvorada, quando militantes foram ameaçados por seguranças, e em Bangu. Assim como o ato, que se concentrou na frente da FETRANSPOR, seguiu para a Central e queimou uma catraca, mesmo sob tentativa de apreensão pela PM.

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O IV Encontro Contra o aumento da passagem foi marcado antes da virada do ano, quando se confirmaria o reajuste para R$3,40 no dia 3 de janeiro de 2015. Após isso, houve um crescimento exponencial da visibilidade do encontro, chegando em uma semana, de mil  a 7 mil confirmados pelo facebook. Diante disso e da imediata nacionalização da luta após a confirmação de aumentos na tarifa em diversas cidades, a mídia corporativa rapidamente passou a divulgar o IV Encontro como se fosse uma manifestação convocada pelo Movimento Passe Livre Rio de Janeiro, sem nem consultar a validade dessa informação com seus militantes. De fato, o encontro foi convocado pelo MPL-Rio, mas organizado pelos outros movimentos e coletivos participantes. No Largo de São Francisco, local marcado para realização do encontro, por conta do boato lançado pela mídia e pela inquietação com o reajuste da tarifa de que ocorreria ali um ato, já havia dois ônibus da PM aguardando as pessoas, assim como vários jornais. Com a chuva, os participantes deliberaram ir para o Salão Nobre no IFCS, o que para os convocadores do evento logo foi visto como negativo, pois a intenção desde o 1° encontro é de que seja em espaços de assembléia com funções rotativas. Não como a dinâmica que se tomou por conta do salão, cabendo a seus militantes fazer a inscrição de falas e organizar pelo microfone, formando-se um palanque de disputas entre coletivos, grande parte pelo formato do salão. Ocorreu também o desrespeito de mídias no local, que não atenderam à deliberação do encontro de não fazer registros ali, pois se tratava de um espaço deliberativo.

Vendo a necessidade de que se inicie logo uma jornada de lutas contra esse aumento absurdo e dada a situação de um bom número de pessoas presentes no IV Encontro Contra o Aumento da Passagem, o MPL-Rio propôs um calendário de atividades, mais um ato a ser realizado naquela mesma noite. O que foi rapidamente acolhido e aprovado pelos membros do encontro, não havendo colocações contrárias, faltando somente a discussão do trajeto. Posteriormente, outras questões de ordem foram colocadas, como o retorno à discussão dos critérios de participação no Encontro. Após a demora em decidir o trajeto do ato, os militantes que estavam no microfone lembraram para que se decidisse as propostas, mas as pessoas do encontro passaram a se agitar para logo seguir em manifestação. Depois o microfone foi pego por outras pessoas e organizações, fazendo o MPL-Rio sair dessa função, que pediram para o Encontro decidir se teria mais propostas discutidas, que foi rechaçada a gritos. Isso fez o encontro descer para o ato. Assim, outras discussões não puderam ser encaminhadas, que serão feitas no V Encontro. Sua data infelizmente coincidiu com o ato durante a audiência dos indiciados pela Operação Firewall da Polícia Civil, sendo este fato informado e seu evento criado somente depois da decisão coletiva no IV encontro.

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A luta que está por vir tem tido grande visibilidade e tende a crescer com as mobilizações a nível nacional. O MPL-Rio entende que é preciso haver uma descentralização e uma construção horizontal dela. Por isso que os Encontros contra o aumento nas passagens não pertencem a ele, muito menos a luta em si deve se submeter integralmente a esse espaço. A união de esforços deve se dar pela ação da luta contra os aumentos, unificadas pela pauta clara e objetiva: redução da tarifa para seu valor mínimo estipulado, que é R$2,50. A luta não deve ser recebida pelo poder público como caso de segurança pública e do judiciário, a questão é social e de transporte coletivo, deve ser tratada como em seu âmbito: com a secretaria de transportes e com o atendimento da pauta da redução da passagem. A decisão do aumento e a existência da tarifa é política, que onera o usuário e enriquece o empresário. Por isso entendemos que é preciso ter foco e união de esforços em garantir essa reivindicação. A unificação com outras bandeiras, como a necessária luta pela libertação de presos (a luta por Rafael Braga e pelos 23 indiciados da operação Firewall) são fundamentais, mas garantindo a autonomia dessas pautas, para se ter um trato na reivindicação contra as autoridades. Como é preciso pautar contra a tarifa diante da secretaria de transporte público, também é preciso pautar a liberdade de companheiros no judiciário, evitando a diluição de pautas, que favorece às classes dominantes e cria uma confusão entre os manifestantes. Por isso, vamos prosseguindo. Nossa chamada é para todos que buscam uma sociedade mais justa e sem catracas. E nossa aliança é com o povo mais pobre e que é mais penalizado e que tem gastos com transporte, como é o caso dos crescentes 37 milhões de excluídos que andam a pé por não poder pagar tarifa. A luta é do povo e não pertence a nenhum encontro, frente, partido ou movimento! Vamos seguindo na luta! Com autonomia, ética e compromisso!

Por uma vida sem catracas!
Aumento nunca mais! É R$2,50 pra baixo!
Liberdade para todos os presos!

Rafael Braga, um excluído do transporte público

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Texto escrito pela Campanha Nacional pela Liberdade de Rafael Braga

Rafael Braga Vieira, 26 anos, é a única pessoa condenada no contexto das manifestações que aconteceram e acontecem no Brasil desde junho de 2013. Rafael foi preso no dia 20 de junho do ano passado durante uma manifestação, pois portava material de limpeza. Ele foi condenado por portar material com potencial explosivo.

Rafael trabalhava como catador de latinhas e não era manifestante. Ele estava entre os manifestantes trabalhando e foi preso unicamente por ser negro e pobre. É difícil imaginar a polícia prendendo uma pessoa branca na rua por portar material de limpeza.

Apesar do que tem sido dito, Rafael não era um morador de rua. De segunda a sexta-feira, Rafael dormia na rua porque não tinha dinheiro para pagar passagem diariamente e, diferente da propaganda produzida pelas agências de notícias contratadas pelo Município e veiculadas pelas grandes mídias a valores não publicáveis, ele permanecia na rua para economizar no valor abusivo da tarifa cobrada e, assim, construía seu barraco e ajudava a família com os parcos recursos acumulados. Como diversos outros trabalhadores e trabalhadoras que só voltam para casa aos finais de semana, Rafael é um dos mais de 37 milhões excluídos do transporte público no Brasil devido ao alto custo das tarifas. Ele é o melhor exemplo de como o transporte, que deveria ser público, na verdade segrega e cerceia o direito de ir e vir da população, ao mesmo tempo que ajuda a enriquecer os grandes empresários do transporte.

Rafael Braga, trabalhador informal, negro e pobre, morava no centro da cidade do Rio de Janeiro próximo à Lapa durante a semana e voltava para sua casa em Olaria nos fins de semana. E por carregar objetos para limpar o local em que dormiria, está hoje preso em Bangu.

Rafael, trabalhador urbano excluído do transporte público para poder construir seu barraco próximo a sua mãe e irmãos. Contribua com a campanha de arrecadação de tijolos para que a casa de Rafael seja feita de tijolos.

Nota sobre o ato “NÃO VAI TER TARIFA” do dia 17 de junho de 2014, na Candelária

Para o mês de Junho, aniversário de um ano da “Jornada de Junho” de 2013, que revogou aumentos nas tarifas em mais de 100 cidades no Brasil, convocamos junto com outros coletivos do Movimento Passe Livre pelo Brasil uma série de atividades que remetessem essa memória e pautasse a TARIFA ZERO durante o período de Copa do Mundo. A intenção clara é a denúncia dos efeitos perversos desse megaevento para a população pobre e trabalhadora do país. Na cidade do Rio de Janeiro, a prefeitura de Eduardo Paes removeu, sob despejos forçados, mais habitações do que os antigos governos de Carlos Lacerda (1962) e Pereira Passos (1903), ambos considerados recordistas de despejos e remoções na história da cidade. As mazelas do transporte público, que nós denunciamos tanto, intensificaram-se sob esse período. As obras para a instalação dos BRTs, além de servirem comojustificativa para remoções, foram extremamente lucrativas para os empresários, que mantiveram as frotas escassas (planejam retirar mais de 500 ônibus de circulação)e as tarifas, que impedem a livre circulação da população. O Bilhete Único, vendido como um suposto benefício aos usuários, se constitui em meio de venda e acúmulo de crédito através do pagamento antecipado de passagens. Trabalhadoras e trabalhadores gastam parte significativa de sua já limitada renda com o transporte. O aumento das tarifas amplia o problema quando aliado ao aumento nos aluguéis, contas e no custo de vida, nesse “boom” do “Brasil da Copa”. Como se não bastasse, medidas repressivas e militaristas estão ocorrendo na cidade, com nítidas feições de repressão política e social da população, como as violações de direitos praticadas pelas UPPs, instaladas com o curioso propósito de “pacificar” as favelas. Por conta do estado que se encontra o Rio de Janeiro, convocamos esse ato durante a Copa com o propósito de usar sua visibilidade para expor nossa principal reivindicação: a TARIFA ZERO nos transportes públicos.

Convocamos a concentração para a Candelária, às 17h e nunca mudamos o local de concentração. Militantes do MPL-Rio perceberam na hora do ato que indivíduos haviam dito pela internet, nas redes sociais, que a convocação havia sido transferida para Copacabana, onde acontecia o “Fifa fan fest”. Lamentamos o ocorrido, mas se tratou de um mal entendido. Mesmo com a previsão de repressão forte durante a Copa, ela foi maior do que o previsto. A concentração
do ato tinha uma enorme presença policial, que impediu sua realização. Até a faixa “NÃO VAI TER TARIFA” foi forçosamente fechada, sob ameaça dos policiais que disseram “Ou guardam ou vamos prender todo mundo”. Nesse momento tornou-se inviável prosseguir com a manifestação, que foi acompanhada de revistas, ameaças e prisões, com alegação de uso de máscaras ou simplesmente de maquiagem e latas para batucada nas performances artísticas (!). Isso fez com que convocássemos as pessoas a se retirarem dali para realizar uma rápida assembléia na Uruguaiana. Nesta, foi decidido que as pessoas iriam se deslocar para Copacabana, onde alguns diziam haver um pequeno protesto e onde teríamos mais visibilidade, já que a polícia estava aproveitando o esvaziamento do centro da cidade para agirem de forma mais agressiva e arbitraria.

Quando tentávamos seguir para Copacabana, fomos acompanhados pela PM, que insistia na hostilidade. As entradas das estações de metrô eram fechadas conforme os manifestantes se aproximavam. Quando decidimos seguir de ônibus, julgando que uma marcha a pé seria arriscada em função da ação repressora da PM, também fomos impedidos de embarcar, uma vez que sempre que parávamos em um ponto de ônibus a viatura da PM tentava fechar a rua. As pessoas caminhavam recolhidas e seguidas até a Cinelândia. Lá, os manifestantes revistamais uma vez tentaram pegar um ônibus. Embora lutemos pela tarifa zero, a ostensiva presença policial nos inibiu de qualquer ação para ocupação do ônibus. Muitas pessoas pagavam suas passagens ao embarcar quando o comandante policial mandou o motorista abrir a porta de trás. Muitos manifestantes exerceram seu direito e subiram promovendo a tarifa zero. Mas, a PM resolveu fechar as portas do ônibus e mandou o motorista não seguir viagem, dizendo que iria levar todos presos. Isso iniciou um conflito, pois os manifestantes reivindicaram descer enquanto os de fora exigiam a soltura dos companheiros. O saldo foram 7 presos para averiguação e alguns processados por desacato à autoridade. Um deles teve sua mão quebrada ao ser golpeado por PMs com cassetetes.

Entendemos que o que ocorreu com o ato no dia 17 de Junho de 2014 foi o meio de um processo de perseguição política e criminalização dos movimentos sociais. Têm ocorrido no país diversos ataques às lutas. Inquéritos e ações persecutórias têm acontecido com o intuito de constranger ou impedir as mobilizações. Em São Paulo, a PM responsabilizou inteiramente o MPL-SP pelos casos de depredação ocorridos durante o ato “NÃO VAI TER TARIFA” de lá, somente por ter feito a convocação e enviado uma carta à secretaria de segurança pública pedindo que não houvesse escolta policial, pois os manifestantes garantem a sua própria segurança. Ora, em eventos organizados pela prefeitura de São Paulo já houve mortes. Por que o poder público e empresas envolvidas não foram punidos e responsabilizados? Trata-se de uma clara manobra política para criminalizar os companheiros e companheiras. Em Goiânia, com a “OPERAÇÃO 2,80” movida pela D.R.A.C.O. (Delegacia de Repressão a Crimes Organizados), membros da “Frente de Luta Goiânia”, da qual faz parte o Coletivo Tarifa Zero Goiânia (federado ao MPL), foram intimados, agredidos verbalmente, interrogados e detidos em suas casas pela madrugada, tendo seus computadores e bens confiscados para fins de averiguação. Aqui no Rio, há o caso de Rafael Viera, morador de rua e lavador de carros, que foi preso durante a manifestação de 20 de Junho de 2013 e condenado por portar uma garrafa de Pinho Sol, alegada ser um explosivo pela justiça.

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Não vamos nos calar perante o que sofremos. O que ocorreu conosco foi uma clara tentativa de intimidação para que não pautássemos a TARIFA ZERO nos transportes públicos no Rio de Janeiro. Reforçamos aqui a nossa disposição de movimento social pelo transporte público e de unificação com todos que queiram lutar por essa pauta. Pois o nosso compromisso é com uma sociedade livre de todas as catracas e com todos os trabalhadores e trabalhadoras que são penalizados pela existência das tarifas e por esse modelo de transporte público voltado ao lucro empresarial. Desde Fevereiro de 2014, tivemos a nossa jornada de lutas, contra o aumento das passagens de ônibus, interrompida por uma tragédia promovida pela Polícia Militar. Essa decidiu sabotar a qualquer custo a ação direta do “catracasso”, que estava tendo um apoio popular crescente, quando jogou bombas e atacou os manifestantes e passageiros na estação Central do Brasil. Isso desencadeou no conflito que provocou a morte por atropelamento do camelô Taslan Aciolly e por um rojão que acertou a cabeça do cinegrafista Santiago Andrade, onde o julgamento dos dois jovens responsabilizados está até hoje sendo usado para fins de terror sobre as lutas sociais. Esses fatos precisam ser lembrados, pois foram seguidos de uma forte perseguição midiática e policial aos movimentos sociais. Principalmente, promoveram uma repressão e silencio sobre o absurdo aumento na tarifa de ônibus para 3 REAIS, que foi condenado por técnicos do TCM (Tribunal de Contas do Município), que afirmavam que a tarifa deveria REDUZIR para R$2,50. Os aumentos na passagem de trem e metrô ocorreram em seguida, depois do então governador Sérgio Cabral ter prometido congelar as tarifas.

Sabemos que a perseguição e a repressão não são de hoje. Isso não foi e nem será suficiente para nos fazer parar. Estaremos nas ruas, bairros, favelas e onde for necessário para nos fortalecer e prosseguir na luta. Temos não só o direito de manifestação e de organização ao nosso lado, mas também toda uma população que sofre com esse modelo de transporte público. A ação do poder público e da polícia só nos revela o seguinte: os “de cima” tremem de medo das mobilizações populares. O que os empresários, a mídia corporativa e os governos querem é impedir o crescimento da adesão aos movimentos sociais, criando um clima de terror e transformando os militantes em suspeitos criminais. A resposta que daremos a isso é prosseguir na mobilização cada vez maior. Por isso, sempre convocaremos todos que queiram lutar pelo direito de ir e vir, pela TARIFA ZERO e pelo direito à cidade. Enquanto houver catracas, estaremos nos organizando e lutando.

Força entre nós, guerra às tarifas! Por uma vida sem catracas!

Movimento Passe Livre – Rio de Janeiro

Nota Sobre o Sequestro da Sigla do MPL

Não é nenhuma novidade que a partir das mobilizações de junho, que surgiram principalmente das manifestações organizadas pelo Movimento Passe Livre em São Paulo e pelo contexto de lutas contra aumento das passagens em tantas outras cidades do país, o nome “Movimento Passe Livre” passou a ser usado em muitas cidades onde não existiam coletivos MPL locais. A mídia deu uma grande exposição das lutas contra o aumento das tarifas em São Paulo e pro MPL em si, e isso contribuiu muito para esta proliferação de “Movimentos Passe Livre” pelo Brasil afora. Hoje, muitos desses “Movimentos” que surgiram fazem parte da federação do MPL, mas o “Passe Livre” também foi usado por vários coletivos que tinham um caráter muito diferente do Movimento que temos construído ao longo de vários anos.

tarifa-zero-mplNos sentimos honrados de ser um dos atores responsáveis pela retomada das lutas de rua autônomas e vitoriosas, e que a nossa organização e as nossas práticas tenham servido de exemplo para tantas outras lutas, mas precisamos ressaltar que nunca nos colocamos no papel de “donos” das lutas de junho. E foi conscientemente que não assumimos o papel de “representantes” dessas mobilizações. Nenhuma luta que o Movimento Passe Livre participou foi construída sozinha, e se as lutas não fossem impulsionadas por todos que se mobilizaram não teríamos conquistado a revogação dos aumentos. Nós acreditamos que as lutas não devem ser só do MPL, ou de uma organização qualquer, e isso por duas razões.

Primeiro, porque o MPL é só mais um movimento social entre tantos outros que lutam contra a exploração e a opressão na cidade e no campo; vamos seguir lutando, todos juntos, rumo às nossas vitórias, e é esta diversidade de lutas e de organizações que nos faz fortes. Em segundo lugar, nós não acreditamos o papel de “vanguardas” que se usam do discurso classista para se colocar como os representantes de todos os trabalhadores, esses grupos de “iluminados” e “entendidos em política” que querem falar em nome dos outros, e atrapalham ou impedem a organização e participação direta dos próprios trabalhadores, desempregados, comunidades indígenas e tantos outros subordinados à dominação da sociedade capitalista racista e patriarcal. Se as lutas de junho não foram suficientes para demonstrá-lo, que fique claro: acreditamos que nós, de baixo, devemos nos organizar coletivamente por nós mesmos, e qualquer forma de luta que tire a iniciativa direta daqueles que a constroem serve apenas para nos manter na passividade a que o capitalismo nos condena.

O Movimento Passe Livre não é uma moda passageira, como a grande mídia faz parecer. Também não é uma onda de manifestações com pautas variadas. O Movimento Passe Livre é um movimento social horizontal, autônomo, apartidário e independente, fundado em 2005 numa plenária do Fórum Social Mundial, a partir da articulação de vários coletivos locais que já se organizavam há algum tempo pra lutar pelo passe livre estudantil em suas cidades. Em 2006, adotamos oficialmente o federalismo como forma de organização, pensando em dois objetivos: (a) criar uma estrutura nacional para apoiar as lutas locais, sem criar qualquer hierarquia entre os coletivos federados, e (b) abrir uma “via de mão dupla”, através da qual, os coletivos já federados e coletivos recém-acolhidos na federação possam contribuir consciente e ativamente com o desenvolvimento das lutas pelo direito à cidade e pela tarifa zero em todo o país. Essas são as bandeiras do movimento. Qualquer pessoa interessada pode encontrar essas resoluções – públicas – tiradas no III Encontro Nacional do MPL, no nosso site: http://mpl.org.br/?q=node/2.

mplDesde junho, a grande mídia e alguns setores da esquerda têm tentado confundir o movimento social organizado, que é o MPL, com uma frente de lutas ampla e irrestrita, para abafar e diluir aquilo com que o MPL contribuiu decisivamente em junho, de maneira organizada: a manutenção de um sentido sólido para a mobilização popular e massiva – uma pauta concreta, simples e palpável, que representa um avanço real na luta popular e que pôde ser conquistada pela luta do povo.

Por isso nos preocupamos com o sequestro do nome “Movimento Passe Livre” por organizações políticas e indivíduos oportunistas, que tentam se aproveitar da legitimidade que o Movimento construiu ao longo de todos esses anos e em junho. Usam o nome do nosso coletivo desrespeitando completamente nossa história de luta. Em Osasco (SP), enquanto o grupo Osasco Contra o Aumento organizava manifestações contra o aumento, membros da União da Juventude Socialista (UJS) usaram a sigla “MPL” para legitimar-se em negociações com o governo. Também na baixada santista (SP), a UJS tentou aparelhar um coletivo que está tentando refundar o MPL na região. Em Salvador (BA) uma frente hegemonizada por indivíduos e organizações de esquerda de cunho nitidamente governista usa a sigla do MPL para se projetar politicamente, e tem hostilizado a própria federação nacional do MPL. Em São Luís (MA), um coletivo local ingressou na federação recentemente, mas não sem antes ter de lidar com um conhecido militante oportunista do movimento estudantil que tentava marcar reuniões com o governo e a prefeitura, e se dizia “coordenador” do movimento, vestido com a camisa do MPL. Em Curitiba, o coletivo expulso da federação, em 2012, insiste no uso ilegítimo de nossa sigla.

Estas situações são apenas as que tivemos notícias, mas, por conta da dimensão das jornadas de junho, devem haver vários outros casos como esses.

Diante de todos eles, reafirmamos que só integram a federação nacional do Movimento Passe Livre, aqueles coletivos que passaram pelo processo de adesão ao MPL: que mostraram ter concordância com os princípios do movimento, dos quais conhecemos a história na própria cidade, que procuraram e foram acompanhados por outros coletivos já federados, e nos quais temos plena confiança e laços de solidariedade de luta. Não proibimos, nem poderíamos proibir que qualquer grupo de pessoas se organize politicamente, e esperamos que mais pessoas se organizem na luta pelo transporte, mesmo que não seja pelo MPL; mas denunciaremos publicamente qualquer tentativa de sequestro do nosso nome por oportunistas que usem a sigla do movimento como uma chance momentânea de crescer na política ou de se afirmar diante de qualquer governo.

POR UMA VIDA SEM CATRACAS E SEM OPORTUNISMO!

MOVIMENTO PASSE LIVRE.

Manifestantes ocupam a Paulista

Sobre a entrevista do Sr Jacob Barata Filho concedida ao Jornal Folha de São Paulo

Lemos recentemente uma entrevista concedida pelo herdeiro de Jacob Barata*, que é um magnata mais conhecido pela sua exposição pública como um dos empresários do transporte público no Rio de Janeiro. Mas esse é somente um dos mercados em que atuam as empresas pertencentes à família Barata. Esta conta com mais de 96 sócios e lucra com diversos mercados. Só com transporte coletivo no Rio de Janeiro, eles têm mais de 430 milhões de reais em lucros. Fora essa explicação do que é e o que significa tal família, a entrevista comentou assuntos pertinentes à população do Rio de Janeiro, como os problemas em torno da mobilidade urbana, que foram tocados desde a CPI dos Ônibus, o aumento das tarifas, a gestão nos transportes e até a Tarifa Zero.

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No início da entrevista o Sr. Barata tenta dizer que não existe “máfia dos transportes” e que não são as empresas que decidem tudo. Ele diz que uma prova disso é o fato de eles perderem mercado para vans e que seu domínio político se dá pela influência junto a seus funcionários para votarem em seus candidatos. “Como há a bancada ruralista, há a bancada do transporte”, diz o empresário. Como já vínhamos denunciando, é exatamente essa uma das bases que mantém o sistema de transportes imerso na crise de mobilidade urbana em que vivemos atualmente. Assim como os ruralistas, que promovem políticas de ataques a indígenas, quilombolas e demais trabalhadores rurais em prol do agronegócio e do latifúndio, os empresários do transporte têm apoio institucional que não depende somente de alguns parlamentares, mas é baseado em leis e contratos que mantém a política de transportes. E o próprio Sr. Barata se dispõe a dizer que “É pessoal” quando indagado sobre as doações de campanha a candidatos. Há uma gama de burocratas, parlamentares e técnicos que agem a favor desses empresários dentro do Estado, agindo de acordo com a decisão política de que o transporte público deva ser pago pela tarifa e que deva funcionar em prol dos lucros.

Os empresários recebem constantemente apoio político para manter um sistema de transportes que beneficia os ricos e penaliza os trabalhadores e mais pobres. Faz parte disso a manutenção de ônibus escassos e corte de linhas, para ter mais usuários pagando tarifas por cada frota. Por isso até hoje o investimento em transporte individual é 12 vezes maior do que no transporte público, mantendo os engarrafamentos que tiram as mais de 2 horas de vidas diárias das pessoas. Nos últimos anos essa escassez levou ao crescimento do transporte público informal (vans, moto-táxis etc), que ainda é muito minoritário, mas hoje há uma perseguição a este transporte, como tem ocorrido com os “choques de ordem” levados a cabo no Rio. Junto a isso, há uma política de proteção aos lucros dos empresários regularizados, como o Sr. Barata, com mais benefícios, desonerações e subsídios. Tudo em benefício da “máfia dos transportes”, como a população, indignada com essa condição, batizou a esses empresários.

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Barata Filho

O Sr. Barata diz que não vê problemas na CPI dos Transportes, dizendo que eles estavam “se preparando” para ela. A pergunta que fazemos é: preparar-se para que? Basta publicar as planilhas de custos e ser transparentes com as políticas e gestões. Assim, não seria preciso a CPI. E essa problemática não é colocada somente por nós, mas pelos técnicos do Tribunal de Contas do Município (TCM), que expuseram mais uma vez a falta de acesso aos dados que compõem os custos das tarifas. Mesmo assim, eles realizaram um cálculo que mostrou que o lucro das empresas apresentou um crescimento maior do que os 10% estipulados nos contratos de 2012, quando a passagem aumentou para R$2,75. Nisso, apontaram que a passagem de ônibus deveria ser reduzida para R$2,50. Logo, sem nenhum argumento técnico, o prefeito Paes, que “poderia ser um pouco mais carinhoso” segundo o Sr. Barata, promoveu um aumento na tarifa de ônibus para 3 reais. Cinquenta centavos a mais do que estipulam os contratos.

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Ato contra o aumento da passagem no Rio de Janeiro.

Da mesma forma que o Sr. Barata, mas por motivos diferentes, vemos como insuficiente uma CPI do transporte público. Entendemos que muito além da falta de acesso às contas das empresas, há um problema de gestão desse serviço, que o coloca em prol do lucro e da tarifa. Isso inclui a decisão sobre as linhas, as frotas, os custos, a rodagem e tudo que for necessário para a sua realização. Por exemplo, é o governo do Estado e o Município que decidem o valor das passagens. Esses dizem se basear em contratos e argumentações técnicas, porém é exatamente de acordo com os interesses políticos que esses são feitos.

A lógica de que a tarifa é a principal fonte de custeio produz um ciclo de exclusão que penaliza cada vez mais o usuário. O sucateamento do serviço, que é fruto do corte de frotas e de falta de manutenção, geralmente é uma pressão pública defendida com argumentos técnicos para que se promovam aumentos na passagem. Com isso, menos usuários podem pagar o serviço. Provocando mais sucateamento, o que funcionam novamente como argumento de novos aumentos. Para manter o sistema intacto diante dessa crise os governos lançam cada vez mais subsídios para cobrir os lucros, resultando em 37 milhões de pessoas excluídas do transporte público no Brasil, que fazem seus trajetos a pé.

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Ato contra o aumento das passagens no Rio de Janeiro.

Finalizando a entrevista, o Sr. Jacob Barata Filho desqualifica as manifestações dizendo que se sentiu injustiçado e que há muita falta de informação sobre sua família. Como se isso fosse necessário e que a indignação sobre o transporte público já não fosse o suficiente para a população se revoltar! Mas o que mais chamou a nossa atenção foi a sua defesa da tarifa zero, dizendo que é o melhor para os empresários. Diante disso, fazemos a seguinte provocação: por que não agora? Nós sabemos a resposta, pois a manutenção do transporte público como está é uma decisão política e não técnica ou econômica. O custeio pela tarifa mantém o controle empresarial e burocrático sobre as linhas, as frotas e a qualidade do serviço, privando a população mais pobre do direito de ir e vir e favorecendo os setores mais ricos da sociedade.

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Revolta contra as condições do BRT, na estação Mato Alto, em Guaratiba.

Com a tarifa zero se abre uma inversão de prioridades, que passa a ser a dos trabalhadores e da necessidade de locomoção da população. Diante disso, o custeio não deve recair sobre o contribuinte, que é o usuário, mas sim sobre o beneficiado, que são os empresários. Nesse sentido, o Sr. Barata talvez tenha razão ao dizer que com a tarifa zero não haveria pressão sobre ele. O controle popular que decidiria o custeio, modais e linhas para realizar suas demandas. Não caberia a ele pensar em meios de cobrar mais tarifas, mas sim em como contribuir, com suas riquezas, para a execução e rodagem do serviço. O caminho para isso está se abrindo a cada revolta popular pelo transporte público. Esse sim é um “controle de qualidade” de fato. Não cabe ao Sr. Barata fazer isso dando uma volta em seus ônibus de vez em quando ou passeando numa manifestação para monitorar as pessoas. Que ele fique em seus escritórios. Se quiser fazer um diálogo de fato com a população que luta por transporte público, basta dar um primeiro passo: reduzir as tarifas a zero e participar de um diálogo público e aberto.

Por uma vida sem catracas!

Movimento Passe Livre – Rio

*http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1422830-fui-as-manifestacoes-do-rio-e-me-senti-injusticado-diz-maior-empresario-de-onibus.shtml

Nota de repúdio à violência da PMERJ contra trabalhadores e manifestantes no dia 06/02/2014 e a tentativa de criminalização dos movimentos sociais

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O Movimento Passe Livre da cidade do Rio de Janeiro (MPL-Rio) vem a público se manifestar contra a violência perpetrada pela PMERJ no ato da última quinta-feira (06) e que terminou com o saldo de 28 presos, dezenas de feridos e 1 morte. Sim, houve uma morte na última manifestação, prontamente abafada pela mídia corporativa ao dar único enfoque ao caso do jornalista da Bandeirantes atingido na manifestação.

Desde dezembro de 2013 ocorrem atos no Rio de Janeiro contra o aumento das passagens e em todos estas manifestações, apesar de em um momento ou outro, a PMERJ objetivar causar algum entrevero, no geral se mantiveram alheios às movimentações dos manifestantes e tudo correu bem.

Na última manifestação, após a tranquila passeata pela Avenida Presidente Vargas, chegando à Central do Brasil, a PMERJ resolveu que não seria mais um mero coadjuvuvante no ato e colocou toda sua carga polícial sobre os manifestantes, desencadeando uma onda de revolta popular contra as arbitrariedades policiais.

Após a ação covarde dentro da Central do Brasil (usando bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio em ambiente fechado), a PMERJ saiu caçando pessoas a esmo pelas ruas, trabalhadores, manifestantes e quem mais estivesse por ali, novamente jogando bombas à esmo. Nesta situação, o senhor Taslan Aciolly, trabalhador nas ruas centrais da cidade, iniciou uma corrida desesperada pelo meio da avenida para tentar fugir da polícia, algo que muitas outras pessoas faziam no mesmo momento. O pânico causado e a fumaça das bombas tomou conta da via pública e neste momento é que o senhor Taslan Aciolly foi atropelado por um ônibus e teve as duas pernas esmagadas, atingindo artérias importantes do corpo e perdendo muito sangue. Foi socorrido e levado ao hospital Souza Aguiar, mas acabou por falecer no dia seguinte (07).

Uma situação de causa e efeito simples: a PMERJ criou o terror sobre as ruas, levando ao desespero transeuntes, situação que criou o clima indispensável para explicar o porque de correr pelo meio da rua e causando o atropelamento e morte do senhor Taslan Aciolly. Por este motivo, repudiamos a atuação da PMERJ e nos colocamos publicamente em solidariedade com a família e entes queridos deste senhor. Porém, nos causa enorme desalento o esquecimento desta morte. Qual seria o motivo desta situação?

É fato que o ocorrido com o cinegrafista da Tv Bandeirantes Santiago Andrade também nos causa profundo lamento e também nos colocamos aqui em solidariedade com os familiares e entes queridos deste trabalhador. Porém, nos parece completamente evidente que quem desencadeou toda a situação foi a PMERJ e sua irresponsável atuação (jogando bombas de efeito moral a esmo, prendendo e batendo em pessoas aleatoriamente, desencadeando grande revolta entre trabalhares e manifestantes ali presentes). Evidentemente que uma atitude irresponsável por parte de algum manifestante deve ser prontamente criticada, mas a cobertura da mídia corporativa não deixa de demonstrar também os seus objetivos.

Ao qualificar prontamente dois manifestantes vestidos de cinza enquanto “black blocs”, sem antes ter apurado qualquer coisa neste sentido, a mídia corporativa mostra no minimo sua incompetência e, no limite, sua completa parcialidade ante os fatos. É um descalabro tentar vincular uma pessoa à uma tática de ação de rua, em detrimento a preceitos básicos desta tática, já que para ser um “black” bloc é preciso estar de “preto” e, evidentemente, alguém de cinza não compõe o conjunto de pessoas aderentes a esta tática. Mas o pior de tudo é verificar que na visão da mídia corporativa, duas vidas tem valor distinto. E, aparentemente, a vida de um cinegrafista de uma televisão corporativa tem muito mais valor que a vida de um anônimo trabalhador.

Mas não nos deixemos enganar pela aparência forjada, pois a junção de ambos os erros da mídia corporativa nos evidencia um outro aspecto mais importante de sua atuação: ao dar relevo único ao acidente ocorrido com o jornalista, vinculando seu agressor à tática black bloc e ao mesmo tempo esquecendo completamente a morte do senhor Taslan Aciolly, vislumbra-se que mais uma vez o objetivo da mídia cooporativa é criminalizar o movimento de rua e enquadrá-lo sob estritos limites, mostrando sua opção de estar ao lado dos poderes opressores secularmente constituídos (Prefeitura, Governo Estadual e PMERJ).

Sabemos, no entanto, que a PMERJ não tem autonomia nesta decisão, que se deve em sua responsabilidade última ao consórcio do prefeito Eduardo Paes e do Governador Sérgio Cabral, ambos responsáveis pelos aumentos nos ônibus (municipais e intermunicipais) e gestores da máquina assassina da polícia militar. Assim, nos parece evidente que quem acendeu aquele pavio que atingiu o cinegrafista foram os senhores Eduardo Paes e Sérgio Cabral, responsáveis também pelo atropelamento do senhor Taslan Aciolly, sob os quais devem ser computadas o saldo da ação desastrosa e inconsequente da PMERJ.

Mesmo abalados e solidários às vítimas das consequências da atuação policial, não deixaremos de nos valer dos nossos direitos básicos e nos colocar assim contra o aumento. Lembramos ao prefeito e ao governador que o fim das manifestações estão condicionadas à revogação imediata dos aumentos.

Porém, em função dos últimos acontecimentos, a concentração para a próxima manifestação ocorrerá no mesmo local onde o cinegrafista da bandeirantes foi ferido, demonstrando publicamente nossa memória e solidariedade com aqueles que foram atacados no decurso da luta contra os desmandos dos poderes constituídos.

Ninguém será esquecido!
Em repúdio à violência contra trabalhadores e manifestantes no último ato!
Até a vândala e violenta tarifa cair!
Por uma vida sem catracas!

MPL-Rio