Do lado de cá: da Zona Oeste à Zona Norte, o transporte dos consórcios vai piorar.

“surfista zona sul
vai da Barra pro Havaí
surfista zona norte
da Central à Japeri”
Rap do Surfista

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A lotação nos BRTs da Zona Oeste tem causado notícia. Usuários e usuárias do transporte tem divulgado diversos problemas, desde a extrema lotação dos veículos até problemas com a cobrança via Bilhete Único. Nisso, alguns passageiros não se intimidam e resolvem pular a catraca, mas são reprimidos e intimidados. Os modais são um projeto do atual modelo de transporte consorciado, onde desde as últimas licitações de 2010, que violou contratos e foi alvo de investigação por ter 12 empresários com ações em mais de uma empresa, garantiu usufruto desse mercado por 20 anos. Isso quer dizer que até 2030, os BRTs vão ser instalados como um benefício do poder público para a população, mas seguem superlotados e com diversos problemas de manutenção, que podem provocar acidentes. E o BRT já cumpre recordes, com mais de 20 acidentes nos últimos 5 anos, sendo 7 deles fatais.

BRTlotado7Cinicamente, a secretaria municipal de transporte, de Rafael Picciani, declarou que há um aumento do número de usuários e que determinou a instalação de mais veículos articulados. No entanto, ignoram os cortes de linhas de mais de 3 mil ônibus que foram tirados, declarados nos últimos anos pela prefeitura de Eduardo Paes. São esses cortes que promovem a lotação, onde privilegiam os consórcios, com suas linhas alimentadoras e as linhas troncais dos BRTs. Assim, usuários e usuárias precisam fazer mais viagens e “baldeações” para o mesmo trajeto, que faziam antes dos cortes de linhas que não correspondiam ao monopólio dos atuais consórcios. Já era mais do que previsto essas lotações e a piora do serviço. O investimento nos transporte não é cobrado pelas empresas, tanto que 31 empresários de ônibus do Rio de Janeiro estão envolvidos em corrupção de desvio de mais de R$200 milhões, para contas do HSBC na Suíça. E o transporte segue piorando, como os 160 ônibus que a Viação Andorinha, do Consórcio Santa Cruz (Zona Oeste), tirou de circulação, além de reaproveitar peças velhas e deixar mais de 2 meses seus funcionários sem receber salário e cesta básica.

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 As lotações são causadas pelos cortes de linhas e frotas, fruto da suposta “regularização” do transporte na cidade. Não adianta somente instalar veículos novos, é preciso devolver as linhas. Já é histórico que por onde o BRT passa, ocorre cortes de linhas e terminais. Como já tem ocorrido na Zona Norte, em Cascadura, Madureira e Bonsucesso. Isso afeta a população local, que vai ter que andar a pé até os pontos principais, com mais lotação, como afeta o comércio local, que se beneficiava da circulação de pessoas. E muitos cortes foram feitos sem aviso prévio, quando trabalhadores ficam plantados nos pontos e há redução dos ônibus. Em alguns momentos isso gerou revoltas, pois as pessoas iriam perder seus empregos com os atrasos e mais horas de suas vidas, já perdidas nas horas de trânsito.

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Protestos de passageiros contra atrasos e cortes nas linhas, envolvendo o BRT.

O BRT não é um projeto ruim. Ruim para a população é o transporte como mercadoria que trata o direito de ir e vir como algo secundário diante das medidas burocráticas e empresariais. Longe de ser um problema técnico, é um problema político. As lotações são fruto das linhas cortadas e não do próprio usuário, conforme declarou a secretaria de Picciani, que pegaria as viagens contrárias para fugir das mesmas lotações, causadas pelos mesmos cortes de ônibus e linhas. Isso é política da remuneração por passageiro, que onera aos mais pobres ao obrigar o pagamento de tarifas. Promove o ciclo dos aumentos nas tarifas, onde os reajustes são garantidos pelo município, feitos sob o argumento de melhora do serviço. No entanto, com o aumento há menos passageiros pagantes, onde cortam parte do serviço para dar conta dos gastos. Esses mesmos cortes viram argumento para novos aumentos, como suposta solução para melhorias.

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A cada crescimento da tarifa, o prefeito Paes alegou que era pela melhora do serviço e instalação de ar-condicionados. Ele já declarou cortar 2 mil ônibus para cumprir a meta de metade das instalações, além de outras 500 cortados pelo BRT Transcarioca e redução das 123 para 45 linhas da Zona Sul. A maioria delas ligava à Zona Norte da cidade, onde muitos terão que fazer baldeação e mais viagens, pagando mais tarifas. Isso foi defendido pela prefeitura e pela secretaria de transportes como “redução das linhas para ter viagens mais rápidas e menos ônibus, que engarrafavam o trânsito”. Ignoraram que a cada 12 reais que o governo federal dá para a indústria de automóveis particulares, 1 real é investido no transporte público. Tal política gera o caótico trânsito carioca, lotado de carros e motos, que tira em média 2 horas de vida das pessoas por cada trajeto. Assim 31 empresários do ônibus no Rio de Janeiro, incluindo a família Barata, desviam mais de R$200 milhões para contas secretas no HSBC da Suíça, fazendo da corrupção e especulação um mercado integrado ao lobby do transporte público.

linhas zona sul

Clique na imagem, para visualização completa.

Não é por acaso que a maioria das linhas cortadas da Zona Sul, do consórcio Intersul, são ligadas à bairros como Méier, Olaria, São Cristóvão e favela do Jacaré. O transporte dos consórcios é financiado pela tarifa por usuário e pelos moradores de regiões distantes do Centro. São os maiores pagantes, de mais de 50% do custeio desse serviço, que inclui o lucro dos empresários e dinheiro desviado para contas na Suíça. Para a prefeitura, há aumento da demanda de usuários, então o recomendado pelas empresas é cortar linhas e não aumentar a oferta, para valorizar comercialmente o serviço. Da mesma forma promovem o aumento na tarifa do metrô para R$3,70. Sabem que houve um grande aumento de usuários desse modal, que fogem do trânsito e da falta de ônibus, cortados pela prefeitura. O projeto de linha do metrô até São Gonçalo foi abortado pelo governador Pezão, substituída por um BRT, para favorecer aos consórcios. Engana-se quem pensa que a intenção é melhorar o serviço, enquanto houver mais pessoas necessitando dele. Na verdade, o transporte como mercadoria e pago por tarifas busca somente o lucro, enquanto exclui 37 milhões de pessoas, que só andam a pé, nas cidades brasileiras. A população trabalhadora, que é negra e pobre em sua maioria, segue isolada e sem ter seu direito à mobilidade urbana. O controle social e geográfico da cidade é um motivo político para a existência das tarifas. Ataca as mulheres, que são assediadas e sofrem com a falta de transporte noturno, ficando mais vulneráveis a ataques machistas. A única medida dos consórcios contra isso é colocar os vagões exclusivos, no caso da Supervia (trens) e MetrôRio. Fora isso, uma mulher alegou ter sido abusada por um funcionário do BRT Transoeste. É necessário mais ainda que as mulheres lutem pelo transporte público, como foi o exemplo de Rosa Parks contra o racismo nos ônibus dos Estados Unidos. Lembrada pelo MPL-Rio no dia internacional da mulher.

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Em Abril de 2015, a tarifa do MetrôRio aumenta para R$3,70.

O interesse em cobrar tarifas é tão forte pelos empresários, que as gratuidades são negadas de forma indireta. Elas, legalmente, deveriam ser pagas pelo município e pela secretaria de Educação, para o passe estudantil. No entanto, o prefeito Eduardo Paes colocou essa conta na atual tarifa de ônibus, reajustada para R$3,40, que cobre também a renovação de frotas, que deveria ser paga pelo município. Sendo que o monopólio de vendas de ônibus no Rio de Janeiro é do Banco Guanabara, de Jacob Barata. Novamente os empresários são poupados e os trabalhadores são penalizados. Mesmo assim, os estudantes da rede pública são atacados em seu direito à gratuidade. Pois os rodoviários negam suas viagens, por receberem ameaças de cortes salariais e punição caso ultrapassaem um limite diário de gratuidades por cada linha, estipulado pelos patrões. E também, muitos não tem conseguido renovar seus cartões de gratuidades (Rio Card) no início do ano letivo. Isso gerou iniciativas de lutas de estudantes pelo transporte em Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e em Xerém, distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Estado do RJ.

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“Respeito ao PASSE”: estudantes de Xerém, distrito da cidade de Duque de Caxias, reivindicam o atendimento ao passe estudantil. Desrespeitado pelo governo do Estado, consórcios e prefeituras. Durante Março de 2015.

É muito necessária organização e luta nos bairros e favelas por transporte público. A prefeitura pretende instalar o BRT TransBrasil, que vai passar pela Avenida Brasil. Os reflexos já são sentidos pela favela da Maré, onde kombis e demais transportes alternativos são perseguidos. Isso gerou duas chacinas em fevereiro de 2015, quando operações da polícia militar e do exército contra esse modal promoveram fuzilamentos, contra o motorista e os passageiros. Em ambos os casos se gerou mortes, com os culpados ainda sem punição. A política de “regularização” para favorecer aos consórcios é cortar linhas, ônibus e outros modais. Fora isso, podem promover remoções de casas, como forma de promover valorização de terrenos por onde passam os modais, como tem ocorrido na Zona Oeste, com a Vila Autódromo, Vila Recreio e Vila União de Curicica. Essas sofreram remoções pela instalação dos BRTs TransOeste e TransCarioca. Uma clara aliança entre o mercado imobiliário e o lobby do transporte público. Por isso, é preciso que a luta por transporte seja constante, para que se exerça um controle popular sobre ele.

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Estudantes da rede pública fecham um viaduto em Xerém, na cidade de Duque de Caxias.

Não existe outra forma de inverter os problemas do transporte público a não ser lutando. Ou nos organizamos entre o povo, os debaixo, como trabalhadores e desempregados, que precisamos do transporte público, para ter direitos fundamentais na cidade. Ou os empresários e governos, os de cima, organizam o transporte por nós. A organização popular tem tido conquistas, como em São Paulo, com a Luta pelo Transporte no Extremo Sul fazendo pressão pela instalação de linhas e melhoria das vias. Com vitórias ou não, ela se mostra fundamental. Até para a Tarifa ZERO em Maricá (RJ), onde o prefeito prometeu instalar tal modelo em todos os ônibus até 2016, só vai ter avanços caso o povo se organize e lute. Independente de prefeituras, partidos, empresas ou instituições.

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Adesivo “CONTRA A TARIFA”, campanha nacional do Movimento Passe Livre, é encontrado pregado em ônibus na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Por uma vida sem catracas!
É o povo que tem que mandar no transporte!

Movimento Passe Livre – Rio de Janeiro

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Uma resposta para “Do lado de cá: da Zona Oeste à Zona Norte, o transporte dos consórcios vai piorar.

  1. Republicou isso em A festa é boa para pensare comentado:
    Sinal dos tempos.
    Ontem, voltei da Barra da Tijuca num ônibus que faz o percurso Alvorada-Central, via Copacabana. Geralmente vazio, nesse horário do meio dia, estava com uma lotação razoável.
    No meio do engarrafamento, uma senhorinha levantou da cadeira reservada para passageiros especiais e intimou o motorista, que desempenhava também a função de cobrador, a não parar para ninguém mais pois, segundo afirmou, o ônibus estava lotado. Foi acompanhada, no protesto, por uma moça ligeiramente grávida que viajava em pé e estava particularmente indignada. Defendiam, ambas, o direito de viajar de forma relativamente confortável. Acho que isso não nos pertence mais. Mas esqueciam, as duas, do direito dos cidadãos que ansiosamente aguardavam a condução para chegar, atrasados, a seus respectivos compromissos. Marinheiras de primeira viagem, não tem ideia, do que significa transporte público lotado. Sinal dos tempos.

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