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Nota sobre o ato “NÃO VAI TER TARIFA” do dia 17 de junho de 2014, na Candelária

Para o mês de Junho, aniversário de um ano da “Jornada de Junho” de 2013, que revogou aumentos nas tarifas em mais de 100 cidades no Brasil, convocamos junto com outros coletivos do Movimento Passe Livre pelo Brasil uma série de atividades que remetessem essa memória e pautasse a TARIFA ZERO durante o período de Copa do Mundo. A intenção clara é a denúncia dos efeitos perversos desse megaevento para a população pobre e trabalhadora do país. Na cidade do Rio de Janeiro, a prefeitura de Eduardo Paes removeu, sob despejos forçados, mais habitações do que os antigos governos de Carlos Lacerda (1962) e Pereira Passos (1903), ambos considerados recordistas de despejos e remoções na história da cidade. As mazelas do transporte público, que nós denunciamos tanto, intensificaram-se sob esse período. As obras para a instalação dos BRTs, além de servirem comojustificativa para remoções, foram extremamente lucrativas para os empresários, que mantiveram as frotas escassas (planejam retirar mais de 500 ônibus de circulação)e as tarifas, que impedem a livre circulação da população. O Bilhete Único, vendido como um suposto benefício aos usuários, se constitui em meio de venda e acúmulo de crédito através do pagamento antecipado de passagens. Trabalhadoras e trabalhadores gastam parte significativa de sua já limitada renda com o transporte. O aumento das tarifas amplia o problema quando aliado ao aumento nos aluguéis, contas e no custo de vida, nesse “boom” do “Brasil da Copa”. Como se não bastasse, medidas repressivas e militaristas estão ocorrendo na cidade, com nítidas feições de repressão política e social da população, como as violações de direitos praticadas pelas UPPs, instaladas com o curioso propósito de “pacificar” as favelas. Por conta do estado que se encontra o Rio de Janeiro, convocamos esse ato durante a Copa com o propósito de usar sua visibilidade para expor nossa principal reivindicação: a TARIFA ZERO nos transportes públicos.

Convocamos a concentração para a Candelária, às 17h e nunca mudamos o local de concentração. Militantes do MPL-Rio perceberam na hora do ato que indivíduos haviam dito pela internet, nas redes sociais, que a convocação havia sido transferida para Copacabana, onde acontecia o “Fifa fan fest”. Lamentamos o ocorrido, mas se tratou de um mal entendido. Mesmo com a previsão de repressão forte durante a Copa, ela foi maior do que o previsto. A concentração
do ato tinha uma enorme presença policial, que impediu sua realização. Até a faixa “NÃO VAI TER TARIFA” foi forçosamente fechada, sob ameaça dos policiais que disseram “Ou guardam ou vamos prender todo mundo”. Nesse momento tornou-se inviável prosseguir com a manifestação, que foi acompanhada de revistas, ameaças e prisões, com alegação de uso de máscaras ou simplesmente de maquiagem e latas para batucada nas performances artísticas (!). Isso fez com que convocássemos as pessoas a se retirarem dali para realizar uma rápida assembléia na Uruguaiana. Nesta, foi decidido que as pessoas iriam se deslocar para Copacabana, onde alguns diziam haver um pequeno protesto e onde teríamos mais visibilidade, já que a polícia estava aproveitando o esvaziamento do centro da cidade para agirem de forma mais agressiva e arbitraria.

Quando tentávamos seguir para Copacabana, fomos acompanhados pela PM, que insistia na hostilidade. As entradas das estações de metrô eram fechadas conforme os manifestantes se aproximavam. Quando decidimos seguir de ônibus, julgando que uma marcha a pé seria arriscada em função da ação repressora da PM, também fomos impedidos de embarcar, uma vez que sempre que parávamos em um ponto de ônibus a viatura da PM tentava fechar a rua. As pessoas caminhavam recolhidas e seguidas até a Cinelândia. Lá, os manifestantes revistamais uma vez tentaram pegar um ônibus. Embora lutemos pela tarifa zero, a ostensiva presença policial nos inibiu de qualquer ação para ocupação do ônibus. Muitas pessoas pagavam suas passagens ao embarcar quando o comandante policial mandou o motorista abrir a porta de trás. Muitos manifestantes exerceram seu direito e subiram promovendo a tarifa zero. Mas, a PM resolveu fechar as portas do ônibus e mandou o motorista não seguir viagem, dizendo que iria levar todos presos. Isso iniciou um conflito, pois os manifestantes reivindicaram descer enquanto os de fora exigiam a soltura dos companheiros. O saldo foram 7 presos para averiguação e alguns processados por desacato à autoridade. Um deles teve sua mão quebrada ao ser golpeado por PMs com cassetetes.

Entendemos que o que ocorreu com o ato no dia 17 de Junho de 2014 foi o meio de um processo de perseguição política e criminalização dos movimentos sociais. Têm ocorrido no país diversos ataques às lutas. Inquéritos e ações persecutórias têm acontecido com o intuito de constranger ou impedir as mobilizações. Em São Paulo, a PM responsabilizou inteiramente o MPL-SP pelos casos de depredação ocorridos durante o ato “NÃO VAI TER TARIFA” de lá, somente por ter feito a convocação e enviado uma carta à secretaria de segurança pública pedindo que não houvesse escolta policial, pois os manifestantes garantem a sua própria segurança. Ora, em eventos organizados pela prefeitura de São Paulo já houve mortes. Por que o poder público e empresas envolvidas não foram punidos e responsabilizados? Trata-se de uma clara manobra política para criminalizar os companheiros e companheiras. Em Goiânia, com a “OPERAÇÃO 2,80” movida pela D.R.A.C.O. (Delegacia de Repressão a Crimes Organizados), membros da “Frente de Luta Goiânia”, da qual faz parte o Coletivo Tarifa Zero Goiânia (federado ao MPL), foram intimados, agredidos verbalmente, interrogados e detidos em suas casas pela madrugada, tendo seus computadores e bens confiscados para fins de averiguação. Aqui no Rio, há o caso de Rafael Viera, morador de rua e lavador de carros, que foi preso durante a manifestação de 20 de Junho de 2013 e condenado por portar uma garrafa de Pinho Sol, alegada ser um explosivo pela justiça.

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Não vamos nos calar perante o que sofremos. O que ocorreu conosco foi uma clara tentativa de intimidação para que não pautássemos a TARIFA ZERO nos transportes públicos no Rio de Janeiro. Reforçamos aqui a nossa disposição de movimento social pelo transporte público e de unificação com todos que queiram lutar por essa pauta. Pois o nosso compromisso é com uma sociedade livre de todas as catracas e com todos os trabalhadores e trabalhadoras que são penalizados pela existência das tarifas e por esse modelo de transporte público voltado ao lucro empresarial. Desde Fevereiro de 2014, tivemos a nossa jornada de lutas, contra o aumento das passagens de ônibus, interrompida por uma tragédia promovida pela Polícia Militar. Essa decidiu sabotar a qualquer custo a ação direta do “catracasso”, que estava tendo um apoio popular crescente, quando jogou bombas e atacou os manifestantes e passageiros na estação Central do Brasil. Isso desencadeou no conflito que provocou a morte por atropelamento do camelô Taslan Aciolly e por um rojão que acertou a cabeça do cinegrafista Santiago Andrade, onde o julgamento dos dois jovens responsabilizados está até hoje sendo usado para fins de terror sobre as lutas sociais. Esses fatos precisam ser lembrados, pois foram seguidos de uma forte perseguição midiática e policial aos movimentos sociais. Principalmente, promoveram uma repressão e silencio sobre o absurdo aumento na tarifa de ônibus para 3 REAIS, que foi condenado por técnicos do TCM (Tribunal de Contas do Município), que afirmavam que a tarifa deveria REDUZIR para R$2,50. Os aumentos na passagem de trem e metrô ocorreram em seguida, depois do então governador Sérgio Cabral ter prometido congelar as tarifas.

Sabemos que a perseguição e a repressão não são de hoje. Isso não foi e nem será suficiente para nos fazer parar. Estaremos nas ruas, bairros, favelas e onde for necessário para nos fortalecer e prosseguir na luta. Temos não só o direito de manifestação e de organização ao nosso lado, mas também toda uma população que sofre com esse modelo de transporte público. A ação do poder público e da polícia só nos revela o seguinte: os “de cima” tremem de medo das mobilizações populares. O que os empresários, a mídia corporativa e os governos querem é impedir o crescimento da adesão aos movimentos sociais, criando um clima de terror e transformando os militantes em suspeitos criminais. A resposta que daremos a isso é prosseguir na mobilização cada vez maior. Por isso, sempre convocaremos todos que queiram lutar pelo direito de ir e vir, pela TARIFA ZERO e pelo direito à cidade. Enquanto houver catracas, estaremos nos organizando e lutando.

Força entre nós, guerra às tarifas! Por uma vida sem catracas!

Movimento Passe Livre – Rio de Janeiro

Mesmo sob pressão, manifestantes voltam à rua no Rio de Janeiro

Aconteceu mais uma vez a esperada queima da catraca. Com isso ficou o recado de que elas não mais impedirão as pessoas de lutar por seus direitos ou se movimentar pela cidade. Por Passa Palavra (http://passapalavra.info/2014/02/91498)

10 de fevereiro de 2014. Primeiro dia útil da nova tarifa na cidade do Rio de Janeiro. E, como já era de se esperar, estudantes e trabalhadores saem às ruas para reivindicar a revogação do aumento, seguindo desde o final de dezembro um intenso e extenso calendário de luta.

Após a forte repressão policial do ato anterior (06 de fevereiro), que levou a duas mortes, o ato teve o local de concentração alterado para o mesmo lugar onde o confronto com a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) se intensificou. A intenção era demonstrar solidariedade a todos os presos, feridos e mortos, inclusive o cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade e o trabalhador ambulante Tasnan Aciolly — a morte do primeiro utilizada como pretexto para uma campanha de criminalização do movimento capitaneada pelas mídias corporativas e a do segundo, atropelado em decorrência do tumulto causado pela PM na última manifestação, completamente esquecida, demonstrando o tratamento desigual oferecido pela mídia em função de seus interesses já há muito conhecidos.

Se no início o clima estava tenso, devido ao grande número de policiais, tropa de choque e constantes revistas, logo os manifestantes começaram a entoar palavras de ordem que rememoravam a motivação das manifestações: contra o aumento das passagens.

A polícia parecia querer provocar alguma situação de confronto, pois qualquer coisa, o porte de máscaras de gás por exemplo, era tratada como motivo para retirar algum manifestante do aglomerado para averiguação e fotografar suas carteiras de identificação. Também foram apercebidas diversas pessoas (supostos manifestantes) que tiravam fotos dos rostos dos que ali se encontravam.

Uma nota de repúdio à ação repressora da polícia e contra a criminalização dos movimentos sociais foi lida antes de iniciar a caminhada. Desta vez o destino da manifestação não foi a Central do Brasil, almejando sair do roteiro, já que a PMERJ havia se preparado para reprimir o ato caso desejasse voltar até àquele espaço. Assim, decidiram que o correto hoje seria marchar rumo à sede da Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro), que congrega dez sindicatos de empresas de ônibus, sendo os responsáveis pelo transporte urbano e interurbano, além de principais beneficiários com o aumento das passagens.

Ao passar pela Assembleia Legislativa, foi possível ver o contingente de cerca de 50 homens, muito paramentados, fazendo um cordão de isolamento para impedir a sua invasão. Desnecessário, já que a manifestação parou em frente ao prédio da Fetranspor, e lá um jogral foi feito para destacar o papel desempenhado pelas empresas gestoras do sistema de transporte, que, dentre outras coisas, estabelecem a política tarifária.

Após o jogral, aconteceu mais uma vez a esperada queima da catraca, símbolo da segregação espacial urbana. Com isso ficava o recado de que não aceitarão mais a existência de catracas e elas não mais impedirão as pessoas de lutar por seus direitos ou se movimentar pela cidade.

Assim, o encerramento do ato contou com o coro: “que coincidência, não tem polícia, não tem violência.” Na realidade, polícia havia aos montes, mas até o final do ato não surgiram grandes problemas. Depois ficamos sabendo por alguns relatos que já na dispersão a polícia conseguiu causar algum tumulto, sendo uma pessoa presa por estar de máscara e se recusar a mostrar sua identificação. A ironia era que, como de praxe, nenhum dos homens da PMERJ estava com as suas próprias identificações…

Este último ato no Rio de Janeiro demonstra que o movimento se afirma mesmo com toda a pressão feita pela mídia, pela polícia e pelos governantes durante os últimos dias. Se a tentativa criminalização das manifestações não levou ao esvaziamento das ruas, percebe-se que a população não deixará de lutar pelo direito de ir e vir.

Os leitores portugueses que não percebam certas expressões usadas no Brasil e os leitores brasileiros que não entendam algumas expressões correntes em Portugal dispõem aqui de um Glossário de gíria e termos idiomáticos.

Nota de repúdio à violência da PMERJ contra trabalhadores e manifestantes no dia 06/02/2014 e a tentativa de criminalização dos movimentos sociais

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O Movimento Passe Livre da cidade do Rio de Janeiro (MPL-Rio) vem a público se manifestar contra a violência perpetrada pela PMERJ no ato da última quinta-feira (06) e que terminou com o saldo de 28 presos, dezenas de feridos e 1 morte. Sim, houve uma morte na última manifestação, prontamente abafada pela mídia corporativa ao dar único enfoque ao caso do jornalista da Bandeirantes atingido na manifestação.

Desde dezembro de 2013 ocorrem atos no Rio de Janeiro contra o aumento das passagens e em todos estas manifestações, apesar de em um momento ou outro, a PMERJ objetivar causar algum entrevero, no geral se mantiveram alheios às movimentações dos manifestantes e tudo correu bem.

Na última manifestação, após a tranquila passeata pela Avenida Presidente Vargas, chegando à Central do Brasil, a PMERJ resolveu que não seria mais um mero coadjuvuvante no ato e colocou toda sua carga polícial sobre os manifestantes, desencadeando uma onda de revolta popular contra as arbitrariedades policiais.

Após a ação covarde dentro da Central do Brasil (usando bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio em ambiente fechado), a PMERJ saiu caçando pessoas a esmo pelas ruas, trabalhadores, manifestantes e quem mais estivesse por ali, novamente jogando bombas à esmo. Nesta situação, o senhor Taslan Aciolly, trabalhador nas ruas centrais da cidade, iniciou uma corrida desesperada pelo meio da avenida para tentar fugir da polícia, algo que muitas outras pessoas faziam no mesmo momento. O pânico causado e a fumaça das bombas tomou conta da via pública e neste momento é que o senhor Taslan Aciolly foi atropelado por um ônibus e teve as duas pernas esmagadas, atingindo artérias importantes do corpo e perdendo muito sangue. Foi socorrido e levado ao hospital Souza Aguiar, mas acabou por falecer no dia seguinte (07).

Uma situação de causa e efeito simples: a PMERJ criou o terror sobre as ruas, levando ao desespero transeuntes, situação que criou o clima indispensável para explicar o porque de correr pelo meio da rua e causando o atropelamento e morte do senhor Taslan Aciolly. Por este motivo, repudiamos a atuação da PMERJ e nos colocamos publicamente em solidariedade com a família e entes queridos deste senhor. Porém, nos causa enorme desalento o esquecimento desta morte. Qual seria o motivo desta situação?

É fato que o ocorrido com o cinegrafista da Tv Bandeirantes Santiago Andrade também nos causa profundo lamento e também nos colocamos aqui em solidariedade com os familiares e entes queridos deste trabalhador. Porém, nos parece completamente evidente que quem desencadeou toda a situação foi a PMERJ e sua irresponsável atuação (jogando bombas de efeito moral a esmo, prendendo e batendo em pessoas aleatoriamente, desencadeando grande revolta entre trabalhares e manifestantes ali presentes). Evidentemente que uma atitude irresponsável por parte de algum manifestante deve ser prontamente criticada, mas a cobertura da mídia corporativa não deixa de demonstrar também os seus objetivos.

Ao qualificar prontamente dois manifestantes vestidos de cinza enquanto “black blocs”, sem antes ter apurado qualquer coisa neste sentido, a mídia corporativa mostra no minimo sua incompetência e, no limite, sua completa parcialidade ante os fatos. É um descalabro tentar vincular uma pessoa à uma tática de ação de rua, em detrimento a preceitos básicos desta tática, já que para ser um “black” bloc é preciso estar de “preto” e, evidentemente, alguém de cinza não compõe o conjunto de pessoas aderentes a esta tática. Mas o pior de tudo é verificar que na visão da mídia corporativa, duas vidas tem valor distinto. E, aparentemente, a vida de um cinegrafista de uma televisão corporativa tem muito mais valor que a vida de um anônimo trabalhador.

Mas não nos deixemos enganar pela aparência forjada, pois a junção de ambos os erros da mídia corporativa nos evidencia um outro aspecto mais importante de sua atuação: ao dar relevo único ao acidente ocorrido com o jornalista, vinculando seu agressor à tática black bloc e ao mesmo tempo esquecendo completamente a morte do senhor Taslan Aciolly, vislumbra-se que mais uma vez o objetivo da mídia cooporativa é criminalizar o movimento de rua e enquadrá-lo sob estritos limites, mostrando sua opção de estar ao lado dos poderes opressores secularmente constituídos (Prefeitura, Governo Estadual e PMERJ).

Sabemos, no entanto, que a PMERJ não tem autonomia nesta decisão, que se deve em sua responsabilidade última ao consórcio do prefeito Eduardo Paes e do Governador Sérgio Cabral, ambos responsáveis pelos aumentos nos ônibus (municipais e intermunicipais) e gestores da máquina assassina da polícia militar. Assim, nos parece evidente que quem acendeu aquele pavio que atingiu o cinegrafista foram os senhores Eduardo Paes e Sérgio Cabral, responsáveis também pelo atropelamento do senhor Taslan Aciolly, sob os quais devem ser computadas o saldo da ação desastrosa e inconsequente da PMERJ.

Mesmo abalados e solidários às vítimas das consequências da atuação policial, não deixaremos de nos valer dos nossos direitos básicos e nos colocar assim contra o aumento. Lembramos ao prefeito e ao governador que o fim das manifestações estão condicionadas à revogação imediata dos aumentos.

Porém, em função dos últimos acontecimentos, a concentração para a próxima manifestação ocorrerá no mesmo local onde o cinegrafista da bandeirantes foi ferido, demonstrando publicamente nossa memória e solidariedade com aqueles que foram atacados no decurso da luta contra os desmandos dos poderes constituídos.

Ninguém será esquecido!
Em repúdio à violência contra trabalhadores e manifestantes no último ato!
Até a vândala e violenta tarifa cair!
Por uma vida sem catracas!

MPL-Rio

Sobre o ato do dia 6 de Fevereiro

O ato convocado por nós contra o aumento da passagem de ônibus para R$3,00, contou com a presença de ao menos cinco mil pessoas, construído por diversos coletivos, organizações e frentes de luta. As duas pistas sentido norte da Av. Presidente Vargas foram totalmente fechadas. A manifestação seguiu calmamente, até chegar na Estação Central do Brasil. Com isso, ela seguiu espontaneamente para ali e a população iria mais uma vez, viver uma experiência de Tarifa zero com o catracaço. Mas a PM (polícia militar) estava com um forte contingente dentro dali, esperando o protesto chegar para atacar, agindo com extrema violência, levando pânico e ferindo gravemente as pessoas. Isso só demonstra o quanto o lucro dos empresários é mais importante do que vidas para o governo e para essa corporação policial. Tal ação desastrosa transformou a manifestação numa revolta popular, que, além de se defender dos ataques da polícia, as catracas, instrumento de violência que impede o direito de ir e vir, foram quebradas e arrancadas do chão. Os PMs jogaram bombas na Central, um espaço fechado, causando convulsão em uma senhora, desmaio e sufocamento em muitas pessoas. Continuaram perseguindo a população pelas ruas atirando e jogando bombas. Durante o confronto, o jornalista Santiago Andrade foi ferido gravemente na cabeça por uma bomba, que está hospitalizado em coma. Um ônibus, que corria pelo motorista estar sufocando com as bombas de gás atiradas pela PM e não conseguindo ver direito o que havia em sua frente, acidentalmente atropelou o senhor Tasnan Accioly,  65 anos, que atravessava a rua fugindo dos conflitos. Segundo notícias, ele faleceu a caminho do hospital.

A Polícia Militar foi criada num estado de exceção e deveria ter sido extinta na volta do Estado democrático de direito. Esta, além da Tarifa Zero, deve ser uma das conquistas de 2014. Por isso, a luta deve prosseguir, pois um cenário em que manifestantes, passageiros, trabalhadores e jornalistas são agredidos é parte de uma sociedade que vive sob domínio de empresários e das catracas que impedem a livre-circulação de pessoas.

Temos o direito de manifestação, mas a polícia nos perseguiu e agrediu até conseguir acabar com o ato contra o aumento das passagens. Um protesto legítimo, uma vez que técnicos do TCM afirmaram que a passagem deve custar R$2,50, por conta do lucro empresarial além do previsto nos contratos, mas o prefeito quer aumentá-la para R$3,00 neste sábado (dia 8).

Gostaríamos de agradecer publicamente o apoio dos advogados que auxiliam voluntariamente as manifestações e reivindicar a soltura imediata dos, ao menos, 28 presos de ontem. Protestar não crime.
Prestamos solidariedade ao senhor que foi atropelado, ao jornalista e demais feridos. Sofremos juntos uma repressão e queremos dizer que o MPL repudia tentativas de cercear a liberdade de expressão e imprensa, assim como lamentamos os prejuízos humanos ocorridos durante os conflitos.

E como nem tudo é tristeza, mesmo com a repressão policial o catracaço não foi impedido. A entrada gratuita foi liberada para todos durante o resto da noite a partir das catracas danificadas. O direito de ir e vir e o passe livre universal (Tarifa Zero) foram garantidos através da revolta popular contra a violência da polícia e contra o sistema de transportes.

Esperamos de coração que estejam todos e todas bem, na medida do possível. Agradecemos a todos os movimentos sociais e pessoas que aderiram à luta.
Não vamos deixar que a repressão e a brutalidade policial vençam a razão. Dia 10 de fevereiro teremos nosso novo ato, 18hs na Praça do Panteão de Caxias, Central. Contra o aumento da passagem e pela redução para R$2, 50!!

Amanhã vai ser maior.
Por uma vida sem grades, sem repressão e sem catracas!

Movimento Passe Livre – Rio de Janeiro

Central do Brasil – 6 de fevereiro

Vídeo sobre a manifestação contra o aumento da passagem ocorrido no dia 06/02 no Rio de Janeiro.

 

Produção: 202 Filmes

Filmagens e edição: Arthur Moura, Felipe Xavier, Diogo Campos

Rio de Janeiro e Goiânia: quinta-feira de manifestação e resistência

Milhares de manifestantes se reuniram hoje em Goiânia e no Rio de Janeiro, enfrentando a repressão em busca de transformações no sistema de transportes públicos. Por Passa Palavra (http://passapalavra.info/2014/02/91412)

Rio de Janeiro

Cerca de 4 mil manifestantes se reuniram ontem (06/02) na Candelária com o objetivo de dizer um sonoro não ao anúncio de aumento nas passagens de ônibus feito pelo prefeito Eduardo Paes na última semana. Anúncio controverso, ocorrido depois de o Governo estadual, pressionado pelas últimas manifestações, ter congelado os preços das passagens de trens, metrô e barcas. Porém, o risco da manobra editada pelo prefeito não se resume a esse ponto.

O anúncio de aumento, programado para ocorrer no próximo dia 8, deu-se após o próprio Tribunal de Contas do Município (TCM) ter declarado por meio de relatório técnico a incongruência de números e planilhas apresentados pelas empresas. Constatou-se a ausência de séries históricas para comparação dos preços de insumos, sugerindo assim o superfaturamento de itens, com fortes indícios da existência de uma “caixa preta” no sistema. Devido a esse fato, o relatório sugeria uma redução no preço das passagens dos atuais R$2,75 para R$2,50. Mesmo assim, o plenário do TCM não endossou o seu próprio parecer técnico e declarou no relatório final ser inapto a decidir sobre o assunto. Tentavam assim se eximir politicamente, mas na prática abriam espaço para o anúncio de aumento, que acabou por ocorrer rapidamente, apenas algumas horas após a publicação do referido relatório. No entanto, essa medida também mostrava certo isolamento do prefeito, que insistiu em anunciar o aumento das passagens mesmo sem embasamento técnico adequado.

Dentre os organizadores estavam vários coletivos e organizações políticas locais, como o Fórum de Luta Contra o Aumento, a AERJ, a Assembleia do Largo, a Assembleia Popular e os MPLs do Rio de Janeiro e de Niterói. No entanto, como se dá em toda manifestação de rua, vários outros grupos e indivíduos se somaram ao protesto e trouxeram novamente ânimo às ruas centrais do Rio. O roteiro do ato começou como todos os outros no verão carioca: sol e calor intensos, concentração com muita música e disposição de luta. Os manifestantes fecharam as duas faixas da Avenida Presidente Vargas sentido zona norte e seguiram entoando palavras de ordem contra o aumento, contra a Copa e pela tarifa zero. O clima, porém, se transformou quando tentaram reeditar o roteiro das manifestações da semana passada (dias 28 e 30). Nas últimas manifestações, como pode ser visto aqui, centenas de trabalhadores aderiram ao movimento e simplesmente pularam as catracas da Estação Central do Brasil, em um clima extremamente ameno, no qual a Polícia Militar (PM) não reprimiu e a população se aproximou mais das pautas trazidas pelos manifestantes. Quadro totalmente distinto do ocorrido ontem.

Logo que os manifestante entraram novamente na Central, iniciaram o já costumeiro “pula catraca”, enquanto outros tentavam quebrar as catracas da estação. A PM entrou em seguida e começou a lançar bombas de efeito moral, causando pânico e correria dentro da estação. Era cena comum o choro e o desespero de trabalhadores que apanhavam e eram encurralados pela polícia. Uma companheira em estado de choque relatou também que uma senhora, após ser agredida pela polícia, teve convulsão. Entretanto a ação truculenta da PM não se limitou a isso. Spray de pimenta e bombas de gás lacrimogênio foram lançadas no ambiente fechado da Central. Além disso, alguns relatos também dão conta do uso na Central de bombas de nova tecnologia, que no ato do lançamento se espalhariam em várias partes e que, quando explodem, fazem um grande clarão, lançando a esmo alguns estilhaços. Especula-se que talvez o repórter da TV Bandeirantes tenha sido atingido durante o ato por uma dessas armas não-letais. Até o momento o boletim médico afirmava que o repórter estava em estado grave e que passaria por cirurgia. Também devido à correria e tumulto, um ônibus atropelou uma pessoa.

choqueEnquanto alguns manifestantes estavam encurralados pela polícia no interior da Central, outros nos arredores da estação tentavam manter o ato, mesmo com toda repressão prosseguida pela polícia. A resistência durou por algumas horas e os relatos da equipe de advogados militantes contabilizam 28 presos, sendo que dois desses teriam sido presos no interior de uma área de controle militar. Apenas esses dois últimos ainda continuam detidos.

Ao final da manifestação já era possível encontrar pelo Facebook a convocatória para a próxima manifestação no dia 10, primeiro dia útil de cobrança da nova tarifa.

Goiânia

Em Goiânia, no dia 06 de fevereiro, também houve manifestação por melhorias no transporte coletivo na Região Metropolitana. Organizada pela Frente de Luta pelo Transporte Coletivo – que congrega organizações como a RECC, o Tarifa Zero Goiânia, o Psol e outras, além de uma grande quantidade de pessoas não pertencentes a nenhuma organização. A manifestação tinha como objetivo pressionar a implementação imediata do passe livre estudantil universal e irrestrito, bem como a volta imediata do programa Ganha Tempo. O programa permite aos passageiros utilizarem até três ônibus em um intervalo de duas horas e meia, pagando apenas uma passagem.

O passe livre foi aprovado na Câmara de vereadores de Goiânia em julho de 2013 e até o mês de fevereiro não havia entrado em vigor. O Ganha Tempo foi planejado para ser uma compensação em decorrência da isenção fiscal dada pelo Governo Federal nos impostos PIS e COFINS, em junho do mesmo ano, às empresas de transporte coletivo. Entretanto, com o congelamento da tarifa no ano passado e a superação da utilização do programa por parte dos usuários, os empresários alegaram perdas financeiras (embora não demonstradas) e conseguiram uma liminar na justiça de Goiás suspendendo o programa. Entre a melhoria nas formas de utilização do sistema de transporte e a manutenção do lucro empresarial, o Poder Judiciário do estado e a Prefeitura de Goiânia (que não se opôs à suspensão) não vacilaram em apoiar a última.

Com o intuito de lutar por essas conquistas do ano passado, os manifestantes se concentraram na Praça Universitária, de onde saíram por volta das 18:00 deslocando-se por algumas avenidas próximas, com o objetivo de chegar ao terminal da Praça da Bíblia, onde dias atrás ocorreu uma manifestação espontânea contra o atraso de ônibus. Mas para isso um trajeto mais longo foi elaborado com o intuito de dificultar um pouco o trabalho de repressão da polícia.

A queima de pneus e lixo foi realizada em alguns pontos do trajeto, e a tentativa da polícia de impedir a queima dos materiais já indicava que haveria repressão na continuação da manifestação. Já na subida da praça do Botafogo os primeiros tiros de bala de borracha foram disparados. Entretanto, os manifestantes não se dispersaram e continuaram a manifestação por mais duas quadras. A menos de um quilômetro do objetivo final da manifestação a cavalaria da PM iniciou seus trabalhos, utilizando cassetetes e cavalos contra os manifestantes, ferindo alguns deles. A tropa de choque apoiava, com tiros de bala de borracha.

Os manifestantes atiraram paus e pedras e conseguiram se refugiar na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). A PM não entrou, mas em frente ao portão de entrada continuou a atirar contra os manifestantes. Durante vinte minutos os manifestantes esperaram por uma negociação para a saída do local, sem interferência policial. Contra a proposta do comandante da operação policial, de dispersão em pequenos grupos, os manifestantes decidiram sair todos ao mesmo tempo e se deslocaram para a Faculdade de Direito, vizinha ao local anterior. Lá, uma rápida assembleia foi realizada entre os manifestantes, decidindo-se por uma nova manifestação no dia 13 de fevereiro.

A dispersão dos manifestantes foi tranquila nas imediações da faculdade, mas era possível ver a abordagem policial em diversos pontos de ônibus e plataformas de embarque da região onde ocorreu a manifestação. Demonstrando que a repressão não se encerra com o término da manifestação.

Horas antes da manifestação, que exigia nas ruas suas reivindicações, um grupo de 15 entidades estudantis da cidade havia se reunido com a nova diretoria da CMTC (Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo). Pretendendo abrir um canal de diálogo com as instituições oficiais do movimento estudantil e prometendo resolver a situação do passe livre com o Governo do estado, a nova presidente da entidade, Patrícia Veras, afirmou ainda querer entrar em contato com “a população para discutir os problemas, as demandas e as soluções” para o transporte coletivo na Região Metropolitana de Goiânia.

Tal postura indica uma mudança em relação à antiga diretoria, que em nenhum momento se dispôs a dialogar com os movimentos. Mas indica também possíveis problemas que podem surgir da tentativa de institucionalizar uma luta que tem a rua e o controle momentâneo de parte da cidade como seu único local de realização.

Nem tudo é motivo para choro

Apesar da forte repressão, alguns policiais demonstraram que apoiam algumas das ações e reivindicações dos manifestantes. No Rio os policiais da PM aderiram ao catracaço, pulando também as roletas da Central do Brasil, mesmo que para caçar alguns manifestantes espertinhos. Em Goiânia, um policial da PM se posicionou a favor do fim da instituição em que trabalha, apoiando a reivindicação “Pelo fim da PM”, ao segurar um escudo confiscado dos manifestante.

Contra o Aumento – O Rio vai Parar!

Chamada para o próximo ato organizado pelo Movimento Passe Livre contra o aumento dos ônibus municipais do Rio de Janeiro.

Contra o Aumento – O Rio vai Parar! from passelivrerio on Vimeo.

Data: 6 de Fevereiro, quinta-feira
Local: concentração na Candelária
Horário: 17h.