A DUPLA FUNÇÃO E A TARIFA ZERO

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O debate em torno da imposição da dupla-função aos motoristas, que estão assumindo também o papel de cobradores na cidade do Rio de Janeiro, tem se mostrado superficial e convenientemente cacofônico. Enquanto setores burocráticos se debruçam sobre os meios institucionais e a representação sindical da categoria se encontra em crise, e cada vez mais atada aos patrões, por isso rejeitada entre rodoviários que se negam a qualquer assunto “político”, é necessário que façamos uma análise sobre as reais intenções dos empresários, amparados por seu grupo de burocratas e políticos, neste plano que está em andamento. No mínimo, desde o edital de licitações para concessões do serviço de transporte de passageiros, de 2010.

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Podemos repetir aqui os argumentos, irrefutáveis, contra a dupla-função, a começar talvez pelo mais óbvio: o motorista que já tem um altíssimo nível de estresse e sofre pressões tanto de passageiros quanto dos patrões, fica sobrecarregado tendo que receber a tarifa e dar o troco, colocando sua vida e as vidas dos passageiros em risco. Daí vamos aos cobradores, que perderão seus empregos, o que já vem acontecendo na cidade do Rio Janeiro. Estes fatos já deixam clara a postura dos patrões frente aos trabalhadores: eliminam um posto de trabalho e precarizam o outro, arbitrariamente, dentro de um sistema de transporte coletivo que se encontra caótico, com o único objetivo de aumentar ainda mais seus lucros.

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Uma das causas das demissões, ignorando as ilegais durante a última greve, tem sido a introdução dos ônibus com duas roletas. E a experiência já mostrou que elas mais atrapalham do que ajudam. Passageiros não sabem o que fazer ou por onde passar (o que acarreta em mais uma função ao motorista, que tem que auxiliar a entrada das pessoas); o espaço entre a porta e as roletas continua pequeno, mantendo a existência das filas que se tornam maiores pela confusão; muitas vezes um dos aparelhos de cobrança eletrônica tem problemas em seu funcionamento; e, uma questão muito importante, as duas roletas tomam um enorme espaço ao seu redor que poderia ser ocupado por no mínimo 8 passageiros sentados e tantos mais em pé, diminuindo as lotações

Outra causa é o corte de linhas, que está acontecendo para privilegiar as operações dos BRTs. Muitas das linhas diretas bairro-centro e bairro/bairro estão sendo transformadas em alimentadores do sistema BRT e as mudanças são feitas sem diálogo algum com a população Já foi anunciado pela prefeitura que 78 linhas zona norte/zona sul serão cortadas, no intuito de “racionalizar” o sistema. Devemos lembrar que a superposição de linhas acontece graças à manutenção do modelo de transporte como mercado, e não como direito. Assim, na prática cada empresa continua fazendo os trajetos que mais lhes forem favoráveis, predatoriamente. – como se estivessem ainda sob modelo permissionário.

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Mas o que as roletas duplas e os BRTs tem a ver com o enriquecimento dos empresários? Há ainda um terceiro elemento: a bilhetagem eletrônica. A RioCard é uma empresa criada pela Fetranspor (Federação das empresas de Transporte do Rio de Janeiro), e é ela que administra o Bilhete Único. Investindo nesta maneira de pagamento, obrigando que usuários façam 1 ou mais baldeações, a Fetranspor garante que as tarifas sejam pagas antecipadamente, centralizando os recursos – inclusive os subsídios estatais referentes às gratuidades. A planilha destes valores não está disponível à sociedade, nem mesmo ao TCM (Tribunal de Contas do Município).

O edital de licitação de 2010 teve como objetivo a organização e garantia dos monopólios das empresas que já controlavam o mercado, passando do modelo de permissões para o de concessões, que duram 20 anos. O parágrafo 6 do edital prevê como meta “possibilitar a implantação do Bilhete Único Municipal nos moldes do Projeto de Lei ” (11/06/2010). Ironicamente, um dos princípios do projeto de Lei que institui o BU é o controle público. Ainda nos contratos do mesmo edital, o BRT é citado no que se refere ao equilíbrio econômico-financeiro e está listado como um dos riscos que devem ser assumidos pela concessionária. Ou seja, as operações de algumas linhas estão submetidas ao monopólio daquelas empresas que dominam as operações dos BRTs.

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A dupla-função entra neste contexto como maneira de garantir a bilhetagem eletrônica e explorar mais os trabalhadores dos transportes, somando assim um lucro imenso aos empresários do setor (sem falar nas tarifas já absurdas, ganhos com publicidades etc). É mais do que obvio o quanto a presença de uma pessoa a mais trabalhando no ônibus garante melhor eficiência e segurança do serviço, porém, ainda escudado pela lógica do lucro fácil, a tendência é que o modelo dos transportes continue o mesmo.

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Defendemos a Tarifa Zero como solução para todos estes problemas, realocando estes trabalhadoresque eram cobradores. Com o transporte funcionando sem a cobrança de tarifa, a frota terá que aumentar substancialmente e será necessário maior número de motoristas. Para isso o investimento público no transporte coletivo deve ser invertido (para cada um 1 real investido no transporte público, 12 são investidos no transporte particular). Existe a proposta de que os cobradores sejam mantidos no ônibus como assessores: para dar informações sobre trajetos, auxiliar idosos, crianças, gestantes e deficientes, abrir e fechar portas, ajudar o motorista em casos de falhas no veículo ou emergências, enfim, são muitas as funções de uma segunda pessoa dentro dos ônibus que atualmente são desempenhadas pela motorista. Obviamente, o debate e as decisões sobre a organização e as funções devem acontecer entre trabalhadores e ser expandido para os usuários, pois é este o conjunto de pessoas que sabe como deve funcionar o transporte coletivo.

Se não começarmos a pensar nas mudanças mais profundas dentro do sistema de transportes, para que ele seja um direito real (e não um privilégio), a exploração dos trabalhadores, a falta de segurança e o descaso com os usuários irão sempre existir, de uma forma ou de outra, garantindo o enriquecimento dos patrões. O debate sobre a dupla-função não pode ser isolado e burocratizado e nossa luta deve se dar na direção de um entendimento mais amplo e crítico sobre como atuam estes empresários para começarmos a definir nossos próximos passos.

Pelo direito à cidade!
Tarifa Zero, já! Paga pelos ricos!
Todo apoio à luta dos(as) trabalhadores(as)!
MPL-Rio

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Moradia e transporte público

Texto originalmente publicado no blog da FIST (Frente Internacionalista dos Sem Teto)

Não é de hoje que o problema de transporte e moradia se acompanham. Isso acontece desde a Revolta do Vintém, em 1880, quando o Império aumentou a taxa sobre a passagem dos bondes em vinte Réis, o povo fez uma revolta popular e conquistou a redução. E no início do século XX, quando o prefeito Pereira Passos fez uma reforma urbana, que passou a expulsar a população mais pobre e trabalhadora do Centro, através do despejo de cortiços. cortiços, a população mais pobre, trabalhadora, em sua maioria negra. O governo reprimiu o levante que o povo fez contra isso, conhecido como a Revolta da Vacina, por ser contra a imposição normas autoritárias, como a vacina obrigatória. Isso é um momento muito importante para a nossa cidade, foi quando lutamos para viver no Centro da cidade. Ali há mais serviços, mais empregos e condições de vida. As pessoas tiveram de ir morar na periferia da cidade, distantes do centro, alugando imóveis dos ricos e proprietários.

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Favela da Providência, formada ao lado do Ministério do Exército, no início do século XX

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Até hoje, é uma jogada dos empresários transportar a multidão de trabalhadores que se deslocam da periferia ao centro todos os dias e ainda cobrar tarifas. Desde os bondes, as cooperativas de lotações, passando pelas permissionárias até as concessionárias de hoje, os empresários lucram explorando a mobilidade pela cidade. E por conta disso, muitos lutam pelo direito à cidade. As favelas, que são as ocupações de morros, são um exemplo dessa luta e há anos se estabelecem como uma alternativa contra a desigualdade, para viver perto das zonas centrais, onde há mais emprego e acesso a direitos. A mesma população negra e trabalhadora, que lutou contra a escravidão, pelo transporte e contra a expulsão do centro, hoje luta para usufruir e se locomover pela cidade.

Favela de Manguinhos, na Zona Norte, luta contra a violência policial e contra a remoção de casas pela instalação da estação de trem.

Favela de Manguinhos, na Zona Norte, luta contra a violência policial e contra a remoção de casas pela instalação da estação de trem.

O lobby do transporte público está junto com o mercado imobiliário, pois enquanto controlam a circulação de pessoas e encarecem o acesso à cidade cobrando tarifas, os imóveis se valorizam comercialmente. Assim, a prefeitura de Eduardo Paes tem promovido políticas de transporte, que promovem remoções. Já removeram a Vila Recreio II, pretendem remover a Vila Autódromo e a Vila União de Curicica, para a expansão do BRT Transolímpica. Ao mesmo tempo, promovem a remoção de diversas favelas. Isso ocorre também no aumento do custo de vida, pela regularização autoritária nesses locais via UPP (Unidades Policiais Pacificadoras), que encarecem as contas de luz, água, aluguéis e outros serviços. Assim, muitas famílias são removidas e obrigadas a morar em locais distantes do Centro. E promovem cortes de linhas de ônibus, tidas como não lucrativas, provocando a lotação, que trazem mais lucros aos empresários, com mais pessoas dentro de cada ônibus, pagando mais tarifas e girando a catraca. O BRT Transoeste já apresentou saturação, levando 17 mil passageiros por hora, mas a capacidade é de 15 mil.

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A instalação dos BRTs Transcarioca e Transolímpico, tem promovido a remoção de casas e a revolta e organização popular dos moradores.

São os trabalhadores que constroem a cidade, tudo aqui é fruto do nosso trabalho e deslocamento. No caso do transporte público, o absurdo dos empresários cobrarem tarifas é que não são os usuários os únicos beneficiados. Patrões também se beneficiam com milhões de pessoas se movendo pela cidade indo trabalhar ou comprar mercadorias. No entanto, os empresários não pagam nada por isso e ainda lucram cada vez mais. Quem se beneficia disso é o lobby do transporte público, que especulam em cima dele, como os 31 empresários desviando R$200 milhões para o HSBC da Suíça, incluindo a família Barata, que é dona do Rio Card e lucra com as “baldeações” dos usuários, pago pelo governo. E também o mercado imobiliário, que tem seus terrenos valorizados com o acesso dificultado para moradores de periferia, como ocorre na Zona Sul da cidade. Tal dificuldade é promovida pela violência policial também, como ocorreu no despejo do imóvel abandonado de Eike Batista: a PM agrediu as famílias sem-teto ocupantes, incluindo uma mãe que pariu seu filho durante o ataque.

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Ocupantes de prédio abandonado da falida EBX são reprimidos brutalmente.

Resistência contra o despejo da Favela do Metrô, perto da favela da Mangueira. Na zona norte.

Resistência contra o despejo da Favela do Metrô, perto da favela da Mangueira. Na zona norte.

As lutas por transporte e pela moradia devem caminhar juntas. Em Junho de 2013, a maior revolta popular dos últimos 20 anos, conquistou a redução das tarifas do transporte público em mais de 100 cidades no Brasil. Isso só ocorreu porque a mobilidade urbana é fundamental para a vida nas cidades. Principalmente para a população mais pobre e moradora das periferias, que tem a locomoção como o terceiro maior gasto e é pagante de mais da metade do valor arrecadado pelos empresários com as tarifas. É preciso que o povo lute pelo direito à cidade, desde ocupando e reivindicando moradia, como pelo controle no transporte público, por mais linhas nos bairros e pela TARIFA ZERO. Ela é possível e combate a especulação imobiliária, basta financiar o transporte gratuito do povo com mais impostos sobre as maiores fortunas, como imóveis abandonados de empresas públicas ou privadas.

Por uma vida sem catracas!
Pelo direito à cidade!

MOVIMENTO PASSE LIVRE – RIO DE JANEIRO

Do lado de cá: da Zona Oeste à Zona Norte, o transporte dos consórcios vai piorar.

“surfista zona sul
vai da Barra pro Havaí
surfista zona norte
da Central à Japeri”
Rap do Surfista

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A lotação nos BRTs da Zona Oeste tem causado notícia. Usuários e usuárias do transporte tem divulgado diversos problemas, desde a extrema lotação dos veículos até problemas com a cobrança via Bilhete Único. Nisso, alguns passageiros não se intimidam e resolvem pular a catraca, mas são reprimidos e intimidados. Os modais são um projeto do atual modelo de transporte consorciado, onde desde as últimas licitações de 2010, que violou contratos e foi alvo de investigação por ter 12 empresários com ações em mais de uma empresa, garantiu usufruto desse mercado por 20 anos. Isso quer dizer que até 2030, os BRTs vão ser instalados como um benefício do poder público para a população, mas seguem superlotados e com diversos problemas de manutenção, que podem provocar acidentes. E o BRT já cumpre recordes, com mais de 20 acidentes nos últimos 5 anos, sendo 7 deles fatais.

BRTlotado7Cinicamente, a secretaria municipal de transporte, de Rafael Picciani, declarou que há um aumento do número de usuários e que determinou a instalação de mais veículos articulados. No entanto, ignoram os cortes de linhas de mais de 3 mil ônibus que foram tirados, declarados nos últimos anos pela prefeitura de Eduardo Paes. São esses cortes que promovem a lotação, onde privilegiam os consórcios, com suas linhas alimentadoras e as linhas troncais dos BRTs. Assim, usuários e usuárias precisam fazer mais viagens e “baldeações” para o mesmo trajeto, que faziam antes dos cortes de linhas que não correspondiam ao monopólio dos atuais consórcios. Já era mais do que previsto essas lotações e a piora do serviço. O investimento nos transporte não é cobrado pelas empresas, tanto que 31 empresários de ônibus do Rio de Janeiro estão envolvidos em corrupção de desvio de mais de R$200 milhões, para contas do HSBC na Suíça. E o transporte segue piorando, como os 160 ônibus que a Viação Andorinha, do Consórcio Santa Cruz (Zona Oeste), tirou de circulação, além de reaproveitar peças velhas e deixar mais de 2 meses seus funcionários sem receber salário e cesta básica.

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 As lotações são causadas pelos cortes de linhas e frotas, fruto da suposta “regularização” do transporte na cidade. Não adianta somente instalar veículos novos, é preciso devolver as linhas. Já é histórico que por onde o BRT passa, ocorre cortes de linhas e terminais. Como já tem ocorrido na Zona Norte, em Cascadura, Madureira e Bonsucesso. Isso afeta a população local, que vai ter que andar a pé até os pontos principais, com mais lotação, como afeta o comércio local, que se beneficiava da circulação de pessoas. E muitos cortes foram feitos sem aviso prévio, quando trabalhadores ficam plantados nos pontos e há redução dos ônibus. Em alguns momentos isso gerou revoltas, pois as pessoas iriam perder seus empregos com os atrasos e mais horas de suas vidas, já perdidas nas horas de trânsito.

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Protestos de passageiros contra atrasos e cortes nas linhas, envolvendo o BRT.

O BRT não é um projeto ruim. Ruim para a população é o transporte como mercadoria que trata o direito de ir e vir como algo secundário diante das medidas burocráticas e empresariais. Longe de ser um problema técnico, é um problema político. As lotações são fruto das linhas cortadas e não do próprio usuário, conforme declarou a secretaria de Picciani, que pegaria as viagens contrárias para fugir das mesmas lotações, causadas pelos mesmos cortes de ônibus e linhas. Isso é política da remuneração por passageiro, que onera aos mais pobres ao obrigar o pagamento de tarifas. Promove o ciclo dos aumentos nas tarifas, onde os reajustes são garantidos pelo município, feitos sob o argumento de melhora do serviço. No entanto, com o aumento há menos passageiros pagantes, onde cortam parte do serviço para dar conta dos gastos. Esses mesmos cortes viram argumento para novos aumentos, como suposta solução para melhorias.

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A cada crescimento da tarifa, o prefeito Paes alegou que era pela melhora do serviço e instalação de ar-condicionados. Ele já declarou cortar 2 mil ônibus para cumprir a meta de metade das instalações, além de outras 500 cortados pelo BRT Transcarioca e redução das 123 para 45 linhas da Zona Sul. A maioria delas ligava à Zona Norte da cidade, onde muitos terão que fazer baldeação e mais viagens, pagando mais tarifas. Isso foi defendido pela prefeitura e pela secretaria de transportes como “redução das linhas para ter viagens mais rápidas e menos ônibus, que engarrafavam o trânsito”. Ignoraram que a cada 12 reais que o governo federal dá para a indústria de automóveis particulares, 1 real é investido no transporte público. Tal política gera o caótico trânsito carioca, lotado de carros e motos, que tira em média 2 horas de vida das pessoas por cada trajeto. Assim 31 empresários do ônibus no Rio de Janeiro, incluindo a família Barata, desviam mais de R$200 milhões para contas secretas no HSBC da Suíça, fazendo da corrupção e especulação um mercado integrado ao lobby do transporte público.

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Clique na imagem, para visualização completa.

Não é por acaso que a maioria das linhas cortadas da Zona Sul, do consórcio Intersul, são ligadas à bairros como Méier, Olaria, São Cristóvão e favela do Jacaré. O transporte dos consórcios é financiado pela tarifa por usuário e pelos moradores de regiões distantes do Centro. São os maiores pagantes, de mais de 50% do custeio desse serviço, que inclui o lucro dos empresários e dinheiro desviado para contas na Suíça. Para a prefeitura, há aumento da demanda de usuários, então o recomendado pelas empresas é cortar linhas e não aumentar a oferta, para valorizar comercialmente o serviço. Da mesma forma promovem o aumento na tarifa do metrô para R$3,70. Sabem que houve um grande aumento de usuários desse modal, que fogem do trânsito e da falta de ônibus, cortados pela prefeitura. O projeto de linha do metrô até São Gonçalo foi abortado pelo governador Pezão, substituída por um BRT, para favorecer aos consórcios. Engana-se quem pensa que a intenção é melhorar o serviço, enquanto houver mais pessoas necessitando dele. Na verdade, o transporte como mercadoria e pago por tarifas busca somente o lucro, enquanto exclui 37 milhões de pessoas, que só andam a pé, nas cidades brasileiras. A população trabalhadora, que é negra e pobre em sua maioria, segue isolada e sem ter seu direito à mobilidade urbana. O controle social e geográfico da cidade é um motivo político para a existência das tarifas. Ataca as mulheres, que são assediadas e sofrem com a falta de transporte noturno, ficando mais vulneráveis a ataques machistas. A única medida dos consórcios contra isso é colocar os vagões exclusivos, no caso da Supervia (trens) e MetrôRio. Fora isso, uma mulher alegou ter sido abusada por um funcionário do BRT Transoeste. É necessário mais ainda que as mulheres lutem pelo transporte público, como foi o exemplo de Rosa Parks contra o racismo nos ônibus dos Estados Unidos. Lembrada pelo MPL-Rio no dia internacional da mulher.

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Em Abril de 2015, a tarifa do MetrôRio aumenta para R$3,70.

O interesse em cobrar tarifas é tão forte pelos empresários, que as gratuidades são negadas de forma indireta. Elas, legalmente, deveriam ser pagas pelo município e pela secretaria de Educação, para o passe estudantil. No entanto, o prefeito Eduardo Paes colocou essa conta na atual tarifa de ônibus, reajustada para R$3,40, que cobre também a renovação de frotas, que deveria ser paga pelo município. Sendo que o monopólio de vendas de ônibus no Rio de Janeiro é do Banco Guanabara, de Jacob Barata. Novamente os empresários são poupados e os trabalhadores são penalizados. Mesmo assim, os estudantes da rede pública são atacados em seu direito à gratuidade. Pois os rodoviários negam suas viagens, por receberem ameaças de cortes salariais e punição caso ultrapassaem um limite diário de gratuidades por cada linha, estipulado pelos patrões. E também, muitos não tem conseguido renovar seus cartões de gratuidades (Rio Card) no início do ano letivo. Isso gerou iniciativas de lutas de estudantes pelo transporte em Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e em Xerém, distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Estado do RJ.

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“Respeito ao PASSE”: estudantes de Xerém, distrito da cidade de Duque de Caxias, reivindicam o atendimento ao passe estudantil. Desrespeitado pelo governo do Estado, consórcios e prefeituras. Durante Março de 2015.

É muito necessária organização e luta nos bairros e favelas por transporte público. A prefeitura pretende instalar o BRT TransBrasil, que vai passar pela Avenida Brasil. Os reflexos já são sentidos pela favela da Maré, onde kombis e demais transportes alternativos são perseguidos. Isso gerou duas chacinas em fevereiro de 2015, quando operações da polícia militar e do exército contra esse modal promoveram fuzilamentos, contra o motorista e os passageiros. Em ambos os casos se gerou mortes, com os culpados ainda sem punição. A política de “regularização” para favorecer aos consórcios é cortar linhas, ônibus e outros modais. Fora isso, podem promover remoções de casas, como forma de promover valorização de terrenos por onde passam os modais, como tem ocorrido na Zona Oeste, com a Vila Autódromo, Vila Recreio e Vila União de Curicica. Essas sofreram remoções pela instalação dos BRTs TransOeste e TransCarioca. Uma clara aliança entre o mercado imobiliário e o lobby do transporte público. Por isso, é preciso que a luta por transporte seja constante, para que se exerça um controle popular sobre ele.

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Estudantes da rede pública fecham um viaduto em Xerém, na cidade de Duque de Caxias.

Não existe outra forma de inverter os problemas do transporte público a não ser lutando. Ou nos organizamos entre o povo, os debaixo, como trabalhadores e desempregados, que precisamos do transporte público, para ter direitos fundamentais na cidade. Ou os empresários e governos, os de cima, organizam o transporte por nós. A organização popular tem tido conquistas, como em São Paulo, com a Luta pelo Transporte no Extremo Sul fazendo pressão pela instalação de linhas e melhoria das vias. Com vitórias ou não, ela se mostra fundamental. Até para a Tarifa ZERO em Maricá (RJ), onde o prefeito prometeu instalar tal modelo em todos os ônibus até 2016, só vai ter avanços caso o povo se organize e lute. Independente de prefeituras, partidos, empresas ou instituições.

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Adesivo “CONTRA A TARIFA”, campanha nacional do Movimento Passe Livre, é encontrado pregado em ônibus na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Por uma vida sem catracas!
É o povo que tem que mandar no transporte!

Movimento Passe Livre – Rio de Janeiro

NOVA MOBILIZAÇÃO DE RODOVIÁRIOS E RODOVIÁRIAS

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Trabalhadoras e trabalhadores do transporte público estão se mobilizando para que a atual direção do sindicato SINTRATURB acate a decisão coletiva. Para que não se repita o acordo de 2014, quando o sindicato negociou com a RioÔnibus um reajuste muito abaixo do necessário e a cesta básica de 150 reais. Ano passado, isso gerou uma greve autônoma e independente do sindicato, em luta pelas suas reivindicações.  Em dois horários, a assembléia ocorrerá 10h e 15h, no GUADALUPE COUNTRY CLUB, Av Brasil 23.304 – Guadalupe/rj.

Atualmente, rodoviários estão sendo atacados por ameaças de demissão, cortes salariais e de direitos. Os editais de transporte de 2010, que garantiram os contratos de 20 anos para os atuais consórcios, não protegem em nenhuma vírgula contra a extinção de postos de trabalho. Juntando com o artigo que coloca a bilhetagem eletrônica como norma para todo o sistema, isso já garante demissões com fim da extinção de trocadores, operando a dupla-função de motoristas no lugar. Em audiências públicas, a RioÔnibus declarou que irão extinguir empregos de trocadores. Nisso, instalam a catraca dupla, que só garante mais tarifas sendo pagas e o atraso para os usuários. Sofrem cortes no salário caso violem regras deliberadas pelos patrões: como quando passageiros sobem no ônibus mas descem sem girar catraca, quando passageiros entram no lado errado diante da catraca-dupla, caso entrem sem pagar tarifa, ausência de hora do almoço, etc. E recentemente os patrões pretendem substituir o direito ao Rio Card, que promove viagens gratuitas, pelo Bilhete Único, onde irão pagar tarifa.

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O aumento na tarifa para R$3,40 foi promovido pelo prefeito Eduardo Paes, alegando o reajuste salarial dos rodoviários de 10%. Sabemos que isso é muito aquém do necessário para repor perdas salariais e de direitos nos últimos anos. O fato é que a tarifa serve somente ao lucro dos empresários, enquanto eles cortam frotas, linhas e postos de trabalho. Pois assim têm mais ônibus lotados, com mais passageiros pagando e girando a catraca, com menos gastos e menos rodoviários sendo empregados.Por isso, agora o prefeito declara que vai tirar 2 mil ônibus, depois dos 900 cortados em 2014 e menos 700 agora na zona sul. Enquanto isso, 31 empresários desviam milhões de reais para contas secretas do HSBC na Suíça. A Viação Andorinha, do Consórcio Santa Cruz, que opera na Zona Oeste, deixou trabalhadores 2 meses sem receber salário e 5 meses sem receber cesta básica, gerando uma recente greve. Essa denunciou que os patrões tiraram de circulação 160 ônibus e reaproveita peças velhas em outros novos. Isso só mostra que a intenção dos empresários é piorar o serviço para lucrar mais, cobrando tarifas dos usuários, e explorando rodoviários.

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O principal motivo da demissão e exploração de rodoviários é a existência de tarifa, onde os empresários precisam cortar ônibus e postos de trabalho, promovendo a lotação e dupla-função para lucrar mais. A proposta do Movimento Passe Livre é objetiva: é preciso acabar com a tarifa para impor a TARIFA ZERO e o controle popular. Ao contrário do que os empresários dizem e quem tem interesses em lucrar com o atual modelo de transporte, a tarifa zero não desempregaria rodoviários em função de cobrador.  Quem demite são os empresários, com interesse em cobrar mais tarifas e gastar menos. O fim das tarifas é uma forma de conquistar o controle social do transporte público, que deve ser realizado junto com rodoviários e usuários. Pois ela aumentaria os direitos trabalhistas (com a efetivação como funcionários públicos) e o corpo profissional, através do aumento das frotas e de linhas, pois na tarifa zero o que importa é a rodagem e o atendimento ao povo, não às tarifas e ao lucro empresarial. Com o controle público, quem pagaria seriam os impostos sobre os mais ricos e empresários, não a exploração dos rodoviários ou a cobrança de tarifa sobre a população. Hoje em dia, quem paga são os mais pobres, excluindo 37 milhões de pessoas, andando somente a pé. Por isso, é possível e necessária uma luta conjunta de rodoviários e usuários do transporte público.

Trabalhador(a) e usuário(a), na luta rodoviária!
Por uma vida sem exploração e sem catracas!

DEPOIS DE CORTES NA PERIFERIA, PREFEITURA VAI TIRAR 35% DOS ÔNIBUS DA ZONA SUL

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A prefeitura anunciou que vai tirar 35% dos ônibus da zona sul do Rio de Janeiro. A alegação é  a presença de linhas sobrepostas que estariam congestionando o trânsito e gerando um aproveito de 50% de suas capacidades em horário de pico. Assim, cairiam de 2.000 para 1.300 ônibus na zona sul com a criação de novas linhas e com trajetos mais curtos. E teriam 77% de suas capacidades. No entanto, isso significaria um aumento das lotações, já que os ônibus estariam em sua máxima capacidade e aproveitamento. Se a frota fosse reduzida a 1000 ônibus, a lotação seria de 100% em horários de pico.  E os congestionamentos são provocados  por carros particulares, não pelos ônibus. Portanto, é um claro resultado da política de favorecimento a esse setor, onde a cada 12 reais fornecidos pelo governo Federal para a indústria de carros e motos, 1 real é investido no transporte público.

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Essa é mais uma medida de favorecimento aos empresários dos consórcios, onde a liquidação da sobreposição de linhas é um projeto desde as licitação de 2010, que garantiu 20 anos de exploração para eles. Elas remetem à “concorrência predatória”, quando cada linha era operada por uma empresa sob o regime como permissionárias. A medida dos últimos editais foi de “racionalizar” o sistema, garantindo monopólio no usufruto do mercado pelos consórcios. Assim, promoveram cortes de linhas e frotas desde a Zona Oeste até a Zona Norte.. Assim, ao invés de acabar com a “concorrência predatória”, como consta nos documentos, garantiram o monopólio e garantia de lucro para certas empresas, as maiores permissionárias anteriormente, ao mesmo tempo em que atuam para liquidar empresas menores. Um exemplo disso é o impasse trabalhista que a Viação Andorinha se encontra, onde rodoviários estão sem receber há dois meses e sua greve denunciou 160 ônibus tirados de circulação. A secretaria municipal de transportes de Picciani logo se prontificou que em caso de falência, o consórcio Santa Cruz, da empresa em questão, iria assumir o mercado. Fora os muitos casos de cortes para favorecer as linhas alimentadoras dos BRTs, como eram os 900 ônibus anunciados de corte pelo prefeito Paes em 2014 para o BRT Transcarioca. Portanto os consórcios não perdem e são favorecidos na concorrência.

comicscontratarifaDepois de diversos cortes nas regiões distantes do centro da cidade. A sobreposição de linhas  na zona sul sendo tratada como mais ônibus e linhas a serem jogadas fora, enquanto podiam repor as linhas cortadas pela cidade, só mostra que o interesse da prefeitura é favorecer aos consórcios e não à população. Levando em conta que o aumento na tarifa para R$3,40 usou o argumento para a instalação de ar-condicionado e a prefeitura alegou tirar 2 mil ônibus para ter metade deles instalados, a retirada de mais frotas leva a mais lotação e mais calor para as viagens, onde metade não terá climatização. E claro, a retirada de ônibus na zona sul prevê a eliminação de 78 linhas (ou 63% do total) e o encurtamento do trajeto de outras 24. Serão criados 29 trajetos e mantidos 21.

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Quanto menos gastos, mais tarifas de R$3,40 e catracas girando por cada cofrinho-ônibus, mais lucro para as contas dos empresários.

Além de cortes de linhas, terão trajetos mais curtos. Isso reduzirá o tempo das viagens, como diz a propaganda da secretaria de transportes, mas trará o aumento do número de viagens. Vai deixar a população dependente das baldeações, que gera mais pagamentos de tarifas, com o Bilhete Único, e com mais lotação por cada ônibus. Conforme já tem ocorrido na Zona Oeste e Zona Norte. E a redução de frota vem acompanhada da demissão de rodoviários, seja pelo menor número de viagens, seja pela extinção do cargo de cobrador pela bilhetagem eletrônica e pela DUPLA-FUNÇÃO. E isso inclui a lotação absurda, considerada como “aceitável” pelos editais de 2010, que é de 6 pessoas por metro quadrado. A situação que tende a piorar, se deixarmos acontecer…

Prefeito Eduardo Paes posa com trocador, enquanto exibe o instrumento que leva ao seu desemprego: a bilhetagem eletrônica.

Prefeito Eduardo Paes posa com trocador em 2010, enquanto exibe o instrumento que leva ao seu desemprego: a bilhetagem eletrônica.

A alegação do aumento na tarifa é de melhora no serviço, o que posteriormente promove novos cortes de linhas. Pois alegam não aproveitar toda a capacidade de lotação, por conta  da redução do número de usuários que possam pagar. E isso posteriormente provoca em mais pressão dos empresários para aumentar de novo. Assim, a posição do município e dos governos é de garantir reajustes anuais da tarifa, com desonerações e subsídios, que é uma forma de “incentivar” à empresa a se manter no mercado. O problema é que os usuários seguem pagando por um serviço que piora e não corresponde às suas necessidades. No aumento para R$3,40 o prefeito Eduardo Paes alegou que seria pagar as gratuidades, numa ação criminosa, já que elas devem ser pagas pelo poder público e não pelos que mais dependem do serviço.  Esse dinheiro é pago principalmente pelos mais pobres, onde moradores da zona oeste, zona norte e Baixada Fluminense são os que mais gastam e mais contribuem com o lucro.

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Além disso, foi provado que 31 diretores de empresas de ônibus do Rio de Janeiro possuem contas no HSBC da Suíça, desviando mais de R$200 milhões para contas com sonegação de imposto e sem registro do Banco Central. Fora as suspeitas de cartel, apontadas pelo TCM (Tribunal de Contas do Município) de irregularidades na licitação como o favorecimento à empresários, incluindo a família Barata. Logo, a tarifa serve para engordar suas contas, enquanto a população é excluída do direito à cidade, seja por não poder pagar tarifa ou pelos cortes de linhas e ônibus. Diante da luta pela revogação do aumento, ficamos com a vitória de Maricá. É a terceira cidade do RJ a mostrar que TARIFA ZERO É POSSÍVEL e é uma necessidade. Com suas 4 linhas principais e gratuitas, todas as frotas são com ar-condicionado. Elas lotam pela necessidade do povo de se locomover, por isso a prefeitura de lá declarou que pretende instalar o modelo em todas as linhas até 2016. É mais que importante a população se mobilizar e lutar para essa proposta se concretize, pois os meios estão dados: basta taxar as grandes fortunas dessas empresas e garantir o transporte como um direito social.

Por uma vida sem catracas!
É o povo que tem que mandar no transporte!

AUTONOMIA E LUTA CONTRA A TARIFA, O QUE ESPERAR?

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Passados dois meses do mandato que reelegeu Dilma, o Partido dos Trabalhadores (PT) e seus dirigentes vêm, gradualmente, apresentando sua tática e o que estão dispostos a realizar para completarem 16 anos seguidos no poder, como sujeitos ativos na gerência do estado capitalista brasileiro e seu contínuo investimento (neo)desenvolvimentista, no nível local, regional e quiçá internacional. Em seu primeiro pronunciamento público após vencer a eleição, a presidenta Dilma afirmou estar disposta ao diálogo com diversos setores da sociedade. Na atualidade, isso já apresenta alguns de seus personagens e objetivos, fazendo parte da manutenção estratégica da conciliação de classes, no bojo das desigualdades e injustiças vivenciados pela maior parte da população. No entanto, uma mudança que tende à direita vem ocorrendo nesta estratégia, e é possível ser observada nos rumos que o governo vem trilhando.

Diálogos à direita – Dinheiro Público, lucro privado

Alguns elementos da tendência direitista do governo podem ser observadas na escolha política de ministros que simbolizam o capital em algumas de suas esferas mais lucrativas no Brasil, como é o caso de Katia Abreu na Agricultura e Joaquim Levi para o Ministério da Fazenda. A primeira ligada à bancada ruralista e ao agronegócio, que promovem a grilagem de terra, assassinatos de trabalhadora(e)s camponesa(e)s e indígenas; o segundo, que já participou do FMI por 4 anos, chefiava o setor de investimento do Bradesco, banco privado, que no ano de 2014 teve o 3º maior lucro financeiro da historia dos bancos no Brasil, superior a 15 bilhões de reais. No dia 27 de Fevereiro deste ano, o Ministério do Trabalho informou alterações nos direitos para solicitação do seguro desemprego. Dentre elas, jovens trabalhadores que quiserem receber o benefício pela primeira vez deverão ter trabalhado pelo menos por 18 meses nos últimos 2 anos. Antes o tempo obrigatório de carteira assinada era de 6 meses. Caso exerçam sua profissão por 17 meses e sejam demitidos, não contarão com nenhum recurso para sobreviver até conseguir outro emprego.

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A maior parte das grandes e médias cidades brasileiras tiveram aumentos nas tarifas de ônibus, logo nos primeiros dias de 2015, com o aval de seus respectivos estados e municípios. Um dos argumentos foi o pronunciamento da Frente Nacional de Prefeitos, que alegou que os municípios não têm meios de congelar tarifas por falta de subsídio. Mesmo com a política de desonerações, subsídios e garantias de monopólio lançados pelo Pacto pela Mobilidade Urbana da presidenta Dilma em 2012, feito para favorecer aos empresários. Em disputa com o maior investimento na indústria de automóveis particulares, que a cada 12 reais fornecidos pelo governo federal, 1 real é investido no transporte público. No Rio de Janeiro, a tarifa no modal rodoviário municipal teve o maior aumento dos últimos 20 anos, enquanto nas linhas intermunicipais, barcas, metrôs e trens, já é um dos maiores aumentos da historia.

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Swissleaks

De forma comprovada, o site Swissleaks vazou informações secretas que atestam crimes cometidos por 31 diretores ligados às empresas de ônibus no Rio de Janeiro e revelam parte do patrimônio financeiro não declarados e escondidos em paraísos fiscais, transferidos pelo banco HSBC. Somente Jacob Barata (o maior empresário de ônibus do Rio de Janeiro e um dos maiores do Brasil) e seus parentes, possuíam o equivalente a 176 milhões de dólares. Não se sabe o valor máximo, pois grande parte das informações ainda não está disponibilizada. As contas exteriores e todo este dinheiro não declarado remetem a crimes de sonegação e evasão fiscal sobre seus donos, perante infrações tributárias e penais.

jacobBARATAfilhoCom a mídia cobrindo ou abafando tal denúncia, os governos e a prefeitura ainda não se pronunciaram. A quebra dos contratos de concessão com estas empresas é o mínimo que poderia ser feito. No entanto, a prefeitura de Eduardo Paes prossegue com cortes de linha e de frotas, promovendo remoções de casas e demais medidas para favorecer aos consórcios que monopolizam o transporte público no Rio de Janeiro, com garantia de 20 anos de exploração sob licitações com suspeita de fraude. Um processo lançado pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) foi arquivado em Julho de 2013; apontava formação de cartel, com 4 empresas controlando mais de um terço das ações e empresários que violaram as regras dos contratos, como 12 deles serem sócios de mais de uma empresa, como Jacob Barata Filho. Seu conglomerado, o Grupo Guanabara, controla e fornece mais de 50% das frotas. O município paga a troca de 1.100 ônibus todo ano, fornecendo R$260 milhões. O ex-vereador e ex-deputado Rodrigo Bethlem (PMDB), declarou que recebia propina da família Barata para derrubar sessões, projetos e apoia-lá na Câmara Municipal.

Rodrigo Bethlem: ""Eu fui muito útil pra esse cara na Câmara. Não foi pouco não, muito. Eu derrubei sessão, eu tirei projeto""

Rodrigo Bethlem: “Eu fui muito útil pra esse cara(Barata) na Câmara. Não foi pouco não, muito. Eu derrubei sessão, eu tirei projeto”

Ano após ano, o principal argumento utilizado pelos empresários do transporte para o aumento na tarifa é que seu setor é oneroso e não tem lucro. Dizem: os subsídios não dão conta, inflação aumentou, salário dos funcionários é alto, a frota deve ser renovada, etc… Mas os elementos apresentados compravam o quão milionário e lucrativo é o setor, sem falar na precarização do trabalho dos(as) rodoviários(as) e o sucateamento dos veículos, por falta de manutenção. A TARIFA ZERO demonstrou que pode acontecer em Maricá, depois de Porto Real e Silva Jardim no Estado do RJ. São mais provas de que existir tarifa é uma decisão política dos governos para privilegiar empresas e excluir hoje mais de 37 milhões de pessoas nas cidades, que só andam a pé. E mais 200 mil serão excluídas com os aumentos. A posição do poder público no Rio tem sido de fechar qualquer diálogo: uma ação do Ministério Público questionando judicialmente o aumento para R$3,40 foi negada. Quem está lutando tem sido criminalizado e condenado por contestar a lógica mercadológica deste serviço que deveria ser público, como os 23 processados da operação Firewall e o caso de Rafael Braga.

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“Diálogos” à esquerda

Neste momento, parte da esquerda, incluindo movimentos sociais, centrais sindicais, partidos e ONG’s, dentre outros, vem se articulando em torno do que, inicialmente, foi chamada de “Frente de Esquerda” e agora é denominada como “Frente pelas Reformas Populares”. Embora, em sua Declaração, indique pontos importantes para mobilização e luta em escalas nacionais, algumas perspectivas dessa Frente não soaram muito harmônicas com as pautas apresentadas.

Sem sectarismo, mas analisando objetivamente os fatos atuais, nos perguntamos o que a CUT, que atua como um braço do PT, poderia explicar, por exemplo, na defesa do Eixo 3 desta declaração, que versa sobre ações de luta “Contra os ataques aos direitos trabalhistas, previdenciários e investimentos sociais”. O governo vem atendendo a interesses privados e atacando direitos dos(as) trabalhadores(as). Esta “Central” está afinada com o governo, e assina a declaração. Esta Frente tem articulado de forma equivocada, dentre outras questões, o que eles chamam de “Enfrentamento das pautas da direita na sociedade, no Congresso, no Judiciário e nos Governos”. Como enfrentar as pautas da direita em todas estas dimensões, estando ligados ao governo que já se “endireitou”? O interesse de Lula em defender um retorno aos movimentos sociais e suas bases, pretende preparar sua candidatura para 2018. Sua participação em espaços de mobilização, como esta “Frente”, não tem outro objetivo que não seja o de cooptá-las, a seu bel-prazer

A esquerda não pode dançar a mesma música!

Para que o PT chegasse à presidência em 2002 uma imensa parte da esquerda se mobilizou na campanha pela eleição de Lula. Com a inserção de movimentos sociais, intelectuais, artistas e militantes dentro dos aparelhos do Estado, o governo conseguiu desarticular uma oposição de esquerda ao seu governo. No atual momento a tática de construir “Frentes” e se aproximar de movimentos sociais tem por finalidade  repetir 2002.

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Se existe hoje uma direita tomando corpo, o governo petista tem responsabilidade ao ter buscado em seus mandatos desestruturar a esquerda com repressão, cooptação e manipulação. Antes o governo pregou uma política de conciliação de classes; hoje, assume um viés de classe: a capitalista. Para os movimentos que não tem autonomia como princípio, o cenário político atual será de assédio, porém, seu papel será meramente utilitário, como peões num jogo de xadrez, sacrificados na metade do tabuleiro.

Luta contra a tarifa

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Em 2015, com os novos aumentos na tarifa, novamente a luta se nacionalizou. O Movimento Passe Livre convocou a campanha nacional #ContraTarifa, enquanto diversas cidades convocaram manifestações. No entanto, não há mais o elemento surpresa das grandes marchas de 2013, quando a revolta popular foi o dispositivo que garantiu a vitória contra a burocratização e incitou ações diretas pelas cidades. Os primeiros atos foram duramente reprimidos ou controlados pelo cerco policial, com um claro boicote midiático. Hoje a tática de 2013 chegou a um limite* e a articulação governista é parte dessa previsão. Em São Paulo, o prefeito Haddad(PT) convocou a UNE e outras organizações estudantis, barganhando o recém concedido “passe estudantil” para que esvaziassem a luta contra a tarifa e isolassem o MPL-São Paulo. Como perspectiva de avanço, compas de SP tem apostado em mobilização e atos na periferia**, indo além da revolta e apontando para a organização popular.

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Ato da Luta pelo Transporte do Extremo Sul, com o MPL-São Paulo.

O MPL-Rio de Janeiro convocou os Encontros Contra o Aumento das Passagens, abertos, para que fossem um espaço de articulação de atividades que trouxessem para a agenda da luta a questão do aumento das passagens, em uma tentativa de descentralização. Eles deveriam fazer parte de uma mobilização ampla contra a tarifa mas a prática centralista prevaleceu e o trabalho de base coube quase exclusivamente a nós, pois não conseguimos implantar propostas de horizontalidade e autonomia. Ao mesmo tempo, setores da luta autônoma simplesmente se abstiveram, deixando para nós a obrigação de construção de um espaço horizontal.

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Disputas tomaram o espaço e foi deixada de lado a discussão de tática e mobilização, tendo muito mais importância os pretensos atos grandiosos do que o trabalho de diálogo e informação junto a trabalhadores/as, mesmo com a análise do contexto de forte repressão que temos sofrido em escala crescente desde 2013. Grupos estudantis governistas e anti-governistas atuaram nesta centralização se utilizando de práticas de difamações mentirosas e antiéticas, causando enorme desgaste dentro das reuniões e para o MPL-Rio, que mais uma vez foi posto em um papel central de responsabilidade sobre a luta e cobrado por isso. Garantiram atos com trajetos tradicionais e pouco efetivos, como até a Câmara dos Vereadores. O segundo grupo, ao invés de trabalhar por uma verdadeira superação do governismo e da burocratização da luta, boicotaram propostas descentralizadoras e de ação direta, desviaram o foco para outras pautas – caluniando o MPL de não as apoiar, por priorizar a luta contra a tarifa – mantendo a velha dinâmica que tem isolado a esquerda nas duas últimas décadas, que é a ausência de trabalho de base e de organismos horizontais e populares***.

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Logo depois que o MPL-Rio se retirou dos Encontros, por entender que ali não teria condições de inverter o atual quadro de desmobilização, esse espaço puxou um ato que se iniciou no Tribunal de Justiça, durante a audiência dos 23 perseguidos da operação Firewall, e seguiu até a Bienal da UNE, na Lapa. Locais que politicamente representam interesses completamente opostos, acordados de modo que objetivos específicos fossem alcançados, aparentemente se utilizando da articulação e abrindo mão da luta contra o aumento. Com um número reduzido e específico de pessoas, fica claro que é urgente a mobilização popular para qualquer perspectiva de revogação da tarifa de R$3,40. Tendo a mesma noção centralista, é sintomático que correntes governistas e anti-governistas terminem um ato neste evento com grande investimento financeiro do governo federal, projetado com a presença de ministros e ex-ministros do governo petista, músicos e celebridades caríssimas o suficiente para distrair e cooptar todos para fora da luta. Para o benefício do governismo e dos empresários, a população trabalhadora e desempregada segue acuada e isolada do debate e da luta pelo transporte público. O governismo e o terrorismo de estado atuam com força na periferia, então é ali que devem ser combatidos****. Não é disputando espaços isolados e sem expressão social que venceremos. Enquanto a burocracia do PT se reúne com outras burocracias, devemos nos reunir por baixo, ombro a ombro com o povo, construindo uma base forte em bairros, favelas e periferias, de forma autônoma e independente da conjuntura que vem se configurando, seja contra as ofensivas da direita, seja contra o discurso governista, seja contra as práticas centralistas de vanguardas.

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Ônibus TARIFA ZERO do MPL-Rio pulou carnaval e chamou crianças pra pilotar. No bloco Se Benze Que Dá, da Maré.

Por uma vida sem catracas!
Movimento Passe Livre – Rio de Janeiro

*“Revolta popular contra a tarifa: notas sobre os limites da tática” http://passapalavra.info/2015/01/102196
**“Organize-se! Próximas reuniões abertas e atividades nos bairros!” http://saopaulo.mpl.org.br/2015/01/22/organize/
***“Democracia de base sem trabalho de base?” http://passapalavra.info/2015/02/102335
****“Estado e movimentos sociais” http://passapalavra.info/2012/02/52448

8 DE MARÇO – A MULHER E O TRANSPORTE PÚBLICO

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ROSA PARKS
1913 – 2005
Foi uma mulher negra que viveu nos Estados Unidos e trabalhava como costureira. Na época, pessoas negras sofriam, por lei, uma discriminação e eram proibidas de sentarem nos mesmos lugares que os brancos no transporte público.
Há 60 anos, Rosa Parks se negou a dar seu lugar do ônibus para um homem branco. Por enfrentar a opressão, foi presa. Isso marcou a luta negra pelos direitos civis, marcando o início do boicote dos ônibus de sua cidade, que durou mais de um ano. A luta por transporte público conseguiu acabar com as leis racistas, permitindo que negras e negros pudessem sentar onde quisessem!
Junto com o Movimento Passe Livre, sua morte completa 10 anos em 2015. No dia internacional da mulher, lembramos sua luta por transporte público e contra o racismo.

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E O QUE A MÁFIA DOS TRANSPORTES TEM A VER COM ISSO?

Nos locais mais distantes dos grandes centros, o acesso aos direitos fundamentais só pode ser concretizado através do transporte coletivo. A tarifa cumpre seu papel na exclusão de pessoas negras e pobres das periferias. Vemos que no Rio de Janeiro a presença de trabalhadores mais pobres em locais centrais e elitizados é visto como uma ameaça e invasão, que fere os privilégios da elite. Condições que lembram a escravidão.

Com o único objetivo de defender o lucro empresarial, esse transporte segrega também as mulheres, não levando em conta que ganham, aproximadamente, 30% menos que os homens no Brasil. Assim como os excluídos do transporte (37 milhões de pessoas andando a pé nas cidades brasileiras), os assédios e a violência contra mulheres nos espaços públicos, tão constantes e naturalizados, gritam que aquele lugar não as pertence. Os empresários cortam gastos, manutenção e empregos. Para ter mais lucro com a lotação de pagantes girando a catraca por modal, circulam menos metrô (vai para R$3,70 em Abril), trem(R$3,30), ônibus (R$3,40) e barcas (R5,00). Não levam em conta o conforto e nem a violência, física ou verbal, contra mulheres que a lotação facilita.

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Isolar as mulheres é a solução? Por que não capacitar funcionárias (os), colocar propagandas anti-assédio e mais veículos para evitar lotação?

O transporte noturno é essencial para muitas pessoas que moram na periferia. A falta dele serve como um “toque de recolher” na cidade, principalmente para mulheres, que não se sentem seguras nas ruas pelas ameaças machistas. Mas existimos e exigimos! A TARIFA ZERO é urgente e já existe em algumas cidades do Brasil, mas não é aplicada aqui por interesses políticos. Basta taxar mais impostos dos mais ricos, que só lucram, e menos dos mais pobres, que mais necessitam dela. Para garantir transporte gratuito à todas e todos. Circulando quando e onde decidirmos!

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Por uma vida sem opressão e sem catracas!
É o povo que vai mandar no transporte!

MOVIMENTO PASSE LIVRE – RIO DE JANEIRO