DIÁLOGO SOBRE SAMBA: O TREM DAS ONZE JÁ NÃO SAI MAIS, NA CENTRAL E NA LUZ

>>Samba contra o corte de ônibus e a tarifa R$3,80, em Olaria
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Boa análise no texto do companheiro da luta pelo transporte em São Paulo, Legume Lucas. Diante do samba de Adoniran Barbosa, revelam denuncias sobre o veto do direito ao transporte e segregação da população de baixa renda, além da dificuldade de acesso de trabalhadores ao transporte noturno. A Estação da Luz, lotada durante o dia e tarde por receber a circulação de muitos trabalhadores, à noite se hospedam ali nos arredores por perder o retorno para suas casas.
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Assim como a estação da Luz, a Central do Brasil no Rio de Janeiro, o coração que pulsa a classe trabalhadora pela cidade, também passou (ainda passa) por um processo de elitização e perseguição policial dos mesmos setores no trecho da cronica de Lurdez da Luz: “Fizeram uma política para poder expulsar traficantes, trombadinhas [grupos de crianças que praticam assaltos], travestis da área / pra qualquer outro pico de São Paulo vão migrar”. O filme “Central do Brasil”, de Walter Salles, já mostra essa “outra” Central que existia há pouco mais de 20 anos: ambulantes, camelôs, crianças, se estabelecendo ali.
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A condenação moral do tráfico de drogas, enquanto a repressão policial cai somente sobre os mais pobres e negros, caminha junto com o mercado imobiliário e empreiteiras na região. Vizinho da Central, o Morro da Providência já foi vítima de outras ocupações militares antes da UPP(unidade policial pacificadora), em 2008, quando membros do exército torturaram, sequestraram e venderam para uma facção criminosa 3 jovens trabalhadores, que voltavam de seu lazer. Hoje inúmeras remoções ocorreram no morro, muitas alegando a instalação do Teleférico, instalado sem nenhum diálogo com os moradores. Outras remoções foram impedidas pela resistência popular local.
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Apesar da Central ser um coração que pulsa trabalhadores com transporte para outras regiões, não longe dali, na Zona Portuária, está acontecendo um processo de elitização e especulação. Já denunciado e alvo de protestos de moradores, bairros do Santo Cristo, Saúde e Gamboa estão sofrendo com o CORTE DE LINHAS DE ÔNIBUS, parte do projeto de corte de 111 linhas pela prefeitura Eduardo Paes. Moradores locais estão passando mais de 1 hora nos pontos, esperando a única linha que passa nas suas ruas.
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Como parte disso, a Zona Portuária passa pela implementação do Porto Maravilha, que vem com o Museu do Amanhã e a “nova” Praça Mauá. Com expulsão de camelôs e perseguição de moradores de rua, tentam fazer dali um cartão postal da cidade. Ali tem a região conhecida como “Pequena África”, pela maioria de seus moradores serem negros, muitos descendentes da formação de habitações de ex-escravos, com suas produções culturais preservadas, desde terreiros de candomblé, rodas de samba, capoeira, até a luta pelo reconhecimento do Morro da Conceição como remanescente de quilombo.
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Apesar da persistência do Samba da Pedra do Sal, no pé do Morro da Conceição, ao lado da Praça Mauá, a “Pequena África” ainda vive as cicatrizes da segregação e elitismo, que nos lembra a perseguição à organização e autonomia dos trabalhadores negros nos tempos pós-abolição. Perto dali, a prefeitura Eduardo Paes despejou a Ocupação Zumbi dos Palmares e de outras ao redor, que continuam fora de uso. No primeiro semestre de 2009, 50 sobrados, depósitos de camelôs, ocupações e imóveis antigos sofreram incêndios criminosos. Hoje a “Pequena África” é apresentada como um produto de mercado no turismo, enquanto essas violações aos seus moradores são silenciadas.
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O camelódromo da Central também sofreu incêndio, em 2010. Exatamente quando o prefeito propagava o Porto Maravilha na grande mídia. Hoje, não existem mais a maioria das moradias populares no local e tal região está sendo tomada por altos prédios e novas construções. A população de trabalhadores com maioria negra, que dava vida ao local, está sendo expulsa por diversas táticas do poder público e privado. Para onde ela vai e o que fará? Vai continuar dando vida para os projetos imobiliários e financeiros que estão se instalando ali, só que pela exploração seu trabalho, cujo valor gerado financia os grandes empreendimentos. O problema é se essas pessoas vão usufruir desse ganho para os empresários, que já dão a resposta negativa com o veto do seu direito à habitação e transporte. Somente a luta e resistência popular vai poder dizer, que também usa sambas, performances e outros meios de criação como instrumentos de mobilização e crítica.
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Camelódromo da Central do Brasil incendiado, em 2010.

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