A TARIFA COMO CONTROLE SOCIAL E O RACISMO NEOLIBERAL

policia-revista-suspeitos-blitz-manguinhos

Polícia Militar já declarou que vai aumentar seu efetivo de agentes para supostamente conter os arrastões nas praias na Zona Sul do Rio de Janeiro. Na prática, a tal OPERAÇÃO VERÃO tem como meta promover revistas e coação nos ônibus vindos da Zona Norte, principalmente das favelas do Jacarezinho e do Complexo do Alemão. Não por coincidência, os principais alvos dela são os usuários negros desse transporte coletivo. E isso tem ocorrido não só no município do Rio, mas em outras cidades do Estado do RJ.

metro-4

O arrastão é um conflito social antigo nas praias da Zona Sul do Rio de Janeiro, que é uma tática de roubo que consiste em arrastar os bens dos banhistas e correr o máximo possível para fugir. Não apoiamos tal prática, mas entendemos que ela é resultado da exclusão social e da extrema desigualdade que existe na cidade. Tais praias sempre foram conhecidas como um espaço democrático e gratuito de lazer, pelo menos é a imagem que se propaga delas. Já que ali é um espaço em que residem tantos interesses de classes, desde a elite até os mais pobres, é comum que tais conflitos venham à tona. E isso vai muito além da ação criminosa que são os arrastões, pois chega até a exclusão dos trabalhadores e dos mais pobres do usufruto da cidade e de seus espaços de lazer.

arrastao-ipanema-20-4

A elite e a classe média do Rio de Janeiro desenvolveram historicamente uma cultura de que a presença de trabalhadores mais pobres em seu local de moradia e lazer é visto como uma ameaça a seus direitos e privilégios. Tal comportamento é profundamente apoiado no racismo e no tratamento aos mais pobres, com condições que rememoram ao escravismo. Um dos exemplos são os tipicamente brasileiros “quarto de empregada” e “elevador de serviço”, onde se demarcam os trajetos e locais que os os trabalhadores podem frequentar. Olhando essa tendência, as praias poderiam ser uma contramão desse processo.

Os recentes comentários de Hildegard Angel sugerindo instituir cobrança como ingresso nas praias da Zona Sul só refletem uma tendência da elite, mesmo que tenha chocado muitas pessoas, incluindo as que pertencem a ela. O que o MPL-Rio entende disso é que já existe esse ingresso pago: é a tarifa nos transportes públicos. Mesmo com seu elitismo escancarado, seu fascismo e racismo estampados numa proposta de gestão neoliberal sobre um espaço público, que são as praias, a tragédia social que isso representa não é uma proposta a ser aplicada. Ela já existe e cumpre seu papel na exclusão de trabalhadores pobres, que em grande sua maioria são negros. Isso é considerável, já que o Rio tem a segunda maior população negra do país, que se situa entre os 37 milhões de excluídos do transporte público, que só andam a pé por não poder pagar pela mobilidade urbana, segundo o Ipea em 2010. Portanto, o assustador de Hildegard e seus seguidores não é a agressividade de seus comentários, mas sim a mediocridade e ignorância perante os fato, que são tão hediondos quanto seus comentários.

infeliz3,40

Ao aumentar as tarifas para R$3,40 o Prefeito Eduardo Paes está fazendo mais pela exclusão social do que apontam os comentários agressivos, com requintes racistas, de muitos membros da elite e da classe média carioca, seguidores de Hildegard. Pois a mediocridade desses se apoia no fato de que eles querem simplesmente não ver ou se deparar perante os que lhes sustentam. Toda a riqueza da cidade e das fortunas dessas pessoas, que grande parte se concentra nas áreas nobres, como a Zona Sul (contando com partes da Zona Norte e Zona Oeste), é produzida pelos trabalhadores. Portanto a nossa locomoção e circulação pela cidade é fundamental para a produção de valor e geração de mercado. No entanto, é somente para isso que os empresários, os verdadeiros algozes da mobilidade urbana do povo, enxergam a locomoção dos trabalhadores, que é para o trabalho como exploração. Isso é percebido quando o cálculo das horas de trabalho não levam em conta as horas perdidas no trânsito, que sobrecarrega e onera mais ainda as milhões de pessoas que se deslocam para as zonas centrais. Da mesma forma, os empresários do lobby do transporte coletivo exploram essa mesma circulação através da tarifa e custeio sobre usuários, impedindo seu direito de ir e vir através da catraca.

lotado

O que não nos surpreende e nem nos choca nos comentários de Hildegard é que as mesmas colocações são feitas quando lutamos por transporte público com gestão popular e tarifa zero. Inclusive pessoas supostamente progressistas proferem os mais profundos preconceitos quando apresentamos as perspectivas do Movimento Passe Livre. O mais comum é ouvir que teriam o incômodo de andar de ônibus com “qualquer tipo de pessoa” ou que não seria bom para a cidade que houvesse ônibus em “qualquer lugar”. Tais colocações refletem os interesses políticos que interferem a favor do atual modelo de transporte público. Isso deixa mais claro que a decisão sobre aumentar a tarifa dos ônibus, barcas, trens e metrôs é simplesmente política. Ela se apoia em uma série de empresários da cidade, como do mercado imobiliário, que enriquece com a exclusão de pessoas das zonas centrais, que assim se valorizam, assim como o racismo e elitismo dos setores mais ricos da cidade. Isso só nos convence de que não existem impedimentos para a luta pelo direito à cidade, pois somos nós que a construímos. Portanto, ela deve ser nossa e com amplos direitos de circulação e usufruto, com TARIFA ZERO e CONTROLE POPULAR dos transportes coletivos. Direito ao lazer, ao tempo livre e ao controle sobre essa cidade que produzimos com nosso trabalho e circulação deve ser garantido para onde quisermos e para onde vier. Seja para qualquer “rolézinho” e para qualquer praia, sem que seja chamado de criminoso ou de arrastão.

 nãovaitertarifa

Seguiremos lutando contra a tarifa e pelo direito à cidade. Vamos todas e todos ao ato contra a tarifa de R$3,40! Nesta sexta, dia 23, às 17h, no Tribunal de Justiça.

Por uma vida sem cercas e sem catracas!
Contra a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais!
#contraatarifa

Movimento Passe Livre – Rio de Janeiro

Anúncios

2 Respostas para “A TARIFA COMO CONTROLE SOCIAL E O RACISMO NEOLIBERAL

  1. Pingback: Do lado de cá: da Zona Oeste à Zona Norte, o transporte dos consórcios vai piorar. | Movimento Passe Livre - Rio de Janeiro

  2. Pingback: #Video:Persiste la protesta contra el aumento de tarifa de transporte público en Brasil | Pulso Oriente

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s