Mesmo sob pressão, manifestantes voltam à rua no Rio de Janeiro

Aconteceu mais uma vez a esperada queima da catraca. Com isso ficou o recado de que elas não mais impedirão as pessoas de lutar por seus direitos ou se movimentar pela cidade. Por Passa Palavra (http://passapalavra.info/2014/02/91498)

10 de fevereiro de 2014. Primeiro dia útil da nova tarifa na cidade do Rio de Janeiro. E, como já era de se esperar, estudantes e trabalhadores saem às ruas para reivindicar a revogação do aumento, seguindo desde o final de dezembro um intenso e extenso calendário de luta.

Após a forte repressão policial do ato anterior (06 de fevereiro), que levou a duas mortes, o ato teve o local de concentração alterado para o mesmo lugar onde o confronto com a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) se intensificou. A intenção era demonstrar solidariedade a todos os presos, feridos e mortos, inclusive o cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade e o trabalhador ambulante Tasnan Aciolly — a morte do primeiro utilizada como pretexto para uma campanha de criminalização do movimento capitaneada pelas mídias corporativas e a do segundo, atropelado em decorrência do tumulto causado pela PM na última manifestação, completamente esquecida, demonstrando o tratamento desigual oferecido pela mídia em função de seus interesses já há muito conhecidos.

Se no início o clima estava tenso, devido ao grande número de policiais, tropa de choque e constantes revistas, logo os manifestantes começaram a entoar palavras de ordem que rememoravam a motivação das manifestações: contra o aumento das passagens.

A polícia parecia querer provocar alguma situação de confronto, pois qualquer coisa, o porte de máscaras de gás por exemplo, era tratada como motivo para retirar algum manifestante do aglomerado para averiguação e fotografar suas carteiras de identificação. Também foram apercebidas diversas pessoas (supostos manifestantes) que tiravam fotos dos rostos dos que ali se encontravam.

Uma nota de repúdio à ação repressora da polícia e contra a criminalização dos movimentos sociais foi lida antes de iniciar a caminhada. Desta vez o destino da manifestação não foi a Central do Brasil, almejando sair do roteiro, já que a PMERJ havia se preparado para reprimir o ato caso desejasse voltar até àquele espaço. Assim, decidiram que o correto hoje seria marchar rumo à sede da Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro), que congrega dez sindicatos de empresas de ônibus, sendo os responsáveis pelo transporte urbano e interurbano, além de principais beneficiários com o aumento das passagens.

Ao passar pela Assembleia Legislativa, foi possível ver o contingente de cerca de 50 homens, muito paramentados, fazendo um cordão de isolamento para impedir a sua invasão. Desnecessário, já que a manifestação parou em frente ao prédio da Fetranspor, e lá um jogral foi feito para destacar o papel desempenhado pelas empresas gestoras do sistema de transporte, que, dentre outras coisas, estabelecem a política tarifária.

Após o jogral, aconteceu mais uma vez a esperada queima da catraca, símbolo da segregação espacial urbana. Com isso ficava o recado de que não aceitarão mais a existência de catracas e elas não mais impedirão as pessoas de lutar por seus direitos ou se movimentar pela cidade.

Assim, o encerramento do ato contou com o coro: “que coincidência, não tem polícia, não tem violência.” Na realidade, polícia havia aos montes, mas até o final do ato não surgiram grandes problemas. Depois ficamos sabendo por alguns relatos que já na dispersão a polícia conseguiu causar algum tumulto, sendo uma pessoa presa por estar de máscara e se recusar a mostrar sua identificação. A ironia era que, como de praxe, nenhum dos homens da PMERJ estava com as suas próprias identificações…

Este último ato no Rio de Janeiro demonstra que o movimento se afirma mesmo com toda a pressão feita pela mídia, pela polícia e pelos governantes durante os últimos dias. Se a tentativa criminalização das manifestações não levou ao esvaziamento das ruas, percebe-se que a população não deixará de lutar pelo direito de ir e vir.

Os leitores portugueses que não percebam certas expressões usadas no Brasil e os leitores brasileiros que não entendam algumas expressões correntes em Portugal dispõem aqui de um Glossário de gíria e termos idiomáticos.

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