Pelo direito ao “rolezinho” pela cidade/ A cultura de se chamar lazer de pobre de “arrastão”.

Quem pegou ônibus nas últimas semanas na cidade do Rio de janeiro pela zona sul observou uma presença ostensiva de policiais nos espaços públicos, chegou a ter um carro do choque em cada esquina e o tempo todo estes agentes abordavam e faziam revista em jovens negros com roupas simples que passeavam pela praia e ruas próximas.

Os ônibus que vem da zona norte estão sendo escoltados por batedores (policiais em moto)e os responsáveis pela ação chegaram a alegar que seguiam “jovens sem camisa pra evitar arruaça”. Num Rio de janeiro que chegou nos últimos dias a ter sensação térmica de 50 graus, por que seria problemático alguém estar sem camisa a caminho da praia ? Para um recorte de classes, é claro.

Em São Paulo, o rolezinho dos jovens da periferia nos shoppings teve grande adesão pelo fato destes locais serem um dos poucos em que não é necessário pagar ingresso pra acessar, aqui no Rio já marcaram um ato muito válido em solidariedade, também em um shopping, mas o rolezinho carioca se da nas praias e como em São Paulo, vem sofrendo preconceito desde a intensificação da presença desses jovens pobres e negros no local com o início do verão e férias.

Estas pessoas não tem como pagar os altos preços das passagens (segundo o IPEA cerca de 40 milhões de brasileiros não tem acesso ao transporte coletivo por não poder pagar passagem) então o que se vê é uma verdadeira força tarefa dessa rapazeada pra se fazer catracassos. Eles não pulam catracas, mas entram pelas portas de traz. O problema é que o poder público simplesmente resolveu impedir o acesso desses meninos e meninas a praia no mês turístico. Fiscais foram postos nas entradas dos ônibus pra deixar os passageiros entrarem de um em um e sair sem estar lotado, formando enormes filas. 

Desta forma, a galera do rolezinho se acumulou nos outros pontos em que estes ônibus teriam que passar. Uma vez que os motoristas estavam aconselhados a passar direto pelos pontos, algumas meninas entraram na frente dos ônibus obrigando-os a pararem e uma multidão de garotos-as entraram de todas as formas pra dentro do ônibus, até pela janela. A policia correu distribuindo porradas de cacetetes em quem estava nos pontos e tentou sem sucesso fazer os-as garotos-as descerem. Houve muita correria da multidão de policiais e garotos(as), várias pessoas disseram que foi mais assustador que em manifestação. Lembrando que o projeto de lei Tarifa Zero prevê um aumento considerável na frota para que lotações não ocorram.

Essa ação policial que está ocorrendo nas praias e bairros nobres do Rio de janeiro está tornando visível uma política de segregação espacial e higienização que já vinha ocorrendo de forma velada no Rio de janeiro. Desde quando anunciou-se que a copa do mundo seria no Brasil, teve inicio uma grande especulação imobiliária e aumento do custo de vida em geral, inclusive das passagens de ônibus. 

Ocupações de prédios abandonados por ex sem-tetos membros de movimentos de ocupação urbana foram desalojados em massa mesmo estas ações sendo ilegais. Uma vez que muitos eram prédios públicos abandonados há mais de 20 anos e a constituição prevê que estes tenham função social, no caso, moradia. A permanência destas pessoas nestes locais também se justifica pelo usucapião por se tratarem de ocupações com muitos anos de existência, Nada disso foi respeitado. Os prédios foram demolidos pra se tornarem empreendimentos luxuosos a lá Dubai-wanna be e alguns simplesmente continuarão abandonados, mas agora contam com sua entrada acimentada. Prédios de até 10 andares abandonados numa cidade com uma população de 100 mil pessoas morando nas ruas.

Com a desculpa de melhoria de vida e mobilidade, moradias passaram a ter ‘SMH’ marcado em suas casas para que estas sejam destruídas para a construção de teleféricos. Essas supostas melhorias na verdade são uma expulsão branca, porque a “valorização” das moradias e consequentemente aumento do aluguel nas comunidades e do custo de vida está expulsando moradores majoritariamente negros e pobres que se mudam para longe dos centros urbanos para a entrada da classe média branca nas favelas.

E a grande mídia vem desempenhando papel importante neste cenário, começou a incentivar até mesmo em novelas a ida desta população branca às comunidades. Existem também passeios de turismo em que se faz um safári em jeeps conversíveis pelo local. Antes a população pobre e negra tinha os morros nas áreas nobres e centrais do Rio de janeiro para morar. Isso começou no fim da escravidão quando as antigas escravas passaram a ser empregadas domésticas e precisavam continuar morando perto das casas de seus patrões. Agora esta havendo um êxodo urbano por parte desta população.

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(Quando as melhorias vêm pra lugares anteriormente abandonados, estas vêm pra expulsar os atuais habitantes do local, pra agora, servir aos ricos. O caso da favela do metro na mangueira demonstra isso. Remoção de moradias para construção de um suposto estacionamento. A cidade do automóvel não é a cidade que queremos. Programas como o “Minha casa, minha vida” (Minha casa removida)não justificam a remoção de moradias. Milhares de pessoas não podem simplesmente perderem seu endereço, sua proximidade com amigos, suas Raízes e referencias ao sabor dos especuladores.)

Mas o que o MPL e sua luta pela Tarifa Zero tem a ver com isso? Quando lutamos pela Tarifa Zero estamos defendendo o direito a cidade, nossa luta no transporte se soma à luta dos-as nossos-as companheiros-as dos movimentos de ocupação, de moradia em geral e de favelas porque ambos estão interligados. Pode-se observar que junto do aumento do valor da moradia e do custo de vida, veio o aumento dos preços das passagens de ônibus e dos cortes de linhas. As linhas que estão sendo cortadas, não por coincidência, são as que vão pro morro do chapéu mangueira, rocinha e Vidigal por exemplo.

Quando existe transporte para comunidades ou subúrbios, este está disponível apenas nos horários de ida e volta do trabalho, não ofertando linhas durante a madrugada. O recado que este modelo de cidade diz é claro – “você vem oferecer sua forca de trabalho e vai embora”. Esta população mais pobre só tem o direito de servir à classe mais alta, construir a cidade, faze-la funcionar , mas não usufrui-la, porque se este(a) trabalhador(a) permanecer nestes centros urbanos e zonas nobres para ver um teatro ou beber uma cerveja ele(a) simplesmente não terá como voltar pra casa pela falta de disponibilidade de transporte. Para evitar que essa classe indesejada durma nos pontos de ônibus tem-se bancos super finos e inclinados em formato de escorregador pra evitar que se deite ali.

Voltando aos rolezinhos nas praias, é interessante perceber que estes ocorrem aos finais de semana ou férias, demonstrando claramente se tratar de uma classe trabalhadora ou estudantil que tem apenas este dia de folga para curtir um (raro) lazer gratuito. Como as as catracas da especulação imobiliária e as catracas dos ônibus não foram o suficiente para manter esta classe afastada, o governador Sergio Cabral e o prefeito Eduardo Paes fizeram a única coisa que sabem fazer, ultra-militarização.

A catraca da repressão é fomentada pelo alarde da violência urbana por parte da grande mídia, que vai potencializando a histeria coletiva e acaba fortalecendo a aprovação por parte da população a medidas proto-fascistas como estas que estão ocorrendo em nossas praias e nos ônibus que vão em direção a elas porque criou-se a cultura de chamar lazer de pobre de “arrastão” . O medo é a maior arma da manipulação do fascismo. 

Todo transporte coletivo tem um pouco de navio negreiro, todo policial tem um pouco de capitão do mato.

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