Entrevista para o site Desenvolvimentistas

MPL 20-12-2013

O ano de 2013 foi marcado pela volta dos grandes movimentos populares às ruas do Brasil. Após anos de certa indiferença as questões sociais numa parcela significativa da sociedade, vimos surgir levantes massivos que levaram as ruas milhões de pessoas em todo o país, começando nas grandes capitais e se alastrando até as periferias.

Nesse contexto, o Movimento Passe Livre possuiu protagonismo. Os atos realizados primeiramente em São Paulo no início de junho lançaram a semente das revoltas em âmbito nacional. O transporte público passou a ser discutido calorosamente, dando destaque a pauta da tarifa zero, culminando na revogação do aumento em dezenas de cidades de nosso país.

Eis que chegamos ao final do ano e as manifestações esfriaram, neste cenário alguns políticos trataram de tentar voltar a fazer a velha política que tanto foi contestada, no dia 5 deste mês o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PMDB – RJ) anunciou aumento nas passagens para o próximo ano.

Diante disto, entrei em contato via e-mail com o MPL-RJ, que já realizou novo ato contra o aumento no último dia 20 (retratado na imagem acima), a fim de que saibamos a perspectiva de atuação do movimento e assim consegui esta entrevista com Andressa Vieira, militante desde 2008 e que nesta oportunidade assumiu a função de porta-voz do coletivo.

Segue a entrevista, na íntegra:

Andressa, gostaria que dissesse sucintamente nesse tópico seu nome todo, há quanto tempo está envolvida no MPL, que funções costuma exercer dentro do movimento e sua idade, e se o MPL lhe deu autorização para falar como porta-voz do movimento para esta entrevista ou se as opiniões refletirão somente sua visão pessoal (Se quiser incluir uma foto sua ou fotos que considere relevante para a matéria seria ótimo):

O MPL é um movimento horizontal, autônomo e apartidário. Ele se organiza sem cargos e nem funções específicas, há rotação de tarefas e divisão igual entre os membros entre todas as funções. Isso serve pra se manter a horizontalidade. A minha (Andressa) função de dar entrevista foi escolhida pelo coletivo, que pode ser mudada a qualquer momento. Construímos textos coletivamente, até essas respostas, incluindo essa primeira, os-as outros-as integrantes do Movimento ajudaram a construir. Então sim. As respostas refletirão o coletivo inteiro, como sempre. Meu nome é Andressa Vieira, tenho 23 anos e estou envolvida no MPL desde 2008.

Acho ideal não mandar foto para evitar qualquer possível projeção pessoal.

Qual o balanço do MPL-RJ dos resultados das jornadas de junho e os atos subsequentes? A atual situação dos movimentos sociais melhorou ou piorou com as repercussões?

O que nós achamos que possa ter sido a maior contribuição do MPL em junho foi as pessoas perceberem que podem elas mesmas tomar frente dos problemas sociais, começar a pensar formas de melhoria e lutar pra que isso se realize, sem que estas pessoas se elejam ou tenham qualquer cargo para isso. Apesar de não nos reconhecermos como lideres de nada. Pela primeira vez uma mobilização grande ocorreu com a contribuição de um movimento composto por pessoas comuns. Esperamos que daqui pra frente as pessoas se engajem mais no futuro de suas vidas e percebam que existe política além do voto.

Apesar de muitos ainda nos quererem como líderes, eles têm que perceber que somos iguais a eles e se pudemos barrar o aumento das passagens eles também podem conseguir avanços em outras áreas.

É só se organizar.

A luta contra o aumento anunciado por Eduardo Paes para 2014 irá continuar? Em entrevista concedida no último dia 5 ele afirmou “É uma previsão contratual ter aumentos de passagens. Fizemos uma redução esse ano por motivos óbvios mas temos o contrato. Fazemos essa conta a partir da planilha de equação econômica existente. Fazemos isso e devemos implementar na frente.” Como vocês avaliam esta declaração?

Fizemos um primeiro protesto dia 20 e ele deu uma recuada jogando a responsabilidade pra outros. Estamos apenas aguardando a resposta do TCM (Tribunal de Contas dos Municípios) sobre o aumento e consequentemente a do Prefeito Eduardo Paes. Se ele se decidir pelo aumento das passagens vamos, claro, parar o Rio de Janeiro.

Seria interessante ele mostrar estas planilhas que nem o TCU (Tribunal de Contas da União) e nem o TCM conhecem, já que estes órgãos alegaram a existência de “caixa preta” neste assunto e os últimos aumentos, por exemplo, terem sido muito mais altos que a inflação do mesmo período.

Qual a perspectiva de vocês para a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Transporte Público aprovada no senado dia 13 de dezembro? Quais senadores seriam os mais indicados para o cargo de presidente e relator?

O MPL é apartidário. Nós não vamos indicar este ou aquele político para nada. Nós pautamos o projeto de lei Tarifa Zero por exemplo, sabemos que terá que passar pela casa legislativa. Vemos então a casa legislativa como um todo e não este ou aquele político como parte do processo que tornará o tarifa zero realidade. Mas nossa luta se da nas ruas, o projeto será aprovado se tiver pressão popular.

O mesmo se dá com a CPI. E de qualquer modo, apesar da CPI ser importante pra expor como a relação empresa-governo se dá e isso nos facilitará questionar muitos gastos e até mesmo os reajustes de passagens.

O que nós reivindicamos não é apenas um transporte com gastos e gestão “transparente” mas um transporte municipalizado, pago com impostos e gerido com participação popular, ou seja, tarifa zero. Sempre enfatizamos que a questão é política e não técnica.

O MPL-RJ pretende contribuir para o sucesso da CPI? Se sim, de que maneira?

O MPL estuda a questão da CPI aqui no Rio de janeiro e vamos estudar a questão nacional. Ainda não conversamos sobre uma possível contribuição, até porque estávamos muito ocupados com o 1º ato contra o aumento e esta CPI ter sido lançada tão recentemente, mas se o fizermos, seria contribuindo com as denuncias, tentando entregar inclusive ao relator, se possível.

A pec 90 que torna o transporte um direito é algo que você não mencionou mas o MPL no país todo está acompanhando e ficamos satisfeitos que tenha sido aprovada numa primeira instancia. Acreditamos que se aprovada, viabilizará o Tarifa Zero se tornar realidade em muitas cidades.

Já o é em Porto Real, cidade aqui do Estado do Rio de Janeiro.

Qual a importância da mídia alternativa e da internet  no cenário das lutas dos movimentos sociais? A grande mídia é justa quando cobre questões relativas aos movimentos sociais?

A grande mídia atende aos seus próprios interesses. Manipula a informação conforme lhe convém no momento. Vimos a mesma mídia criminalizar o movimento e em seguida tentar disputar a pauta da luta.

Por outro lado, a mídia independente é essencial até por uma questão de segurança, coagindo a violência policial ao mostrar que as ações estão sendo documentadas ou denunciando posteriormente. Além do que, é essencial termos nossa própria mídia. É muito importante para os movimentos sociais essa autonomia na comunicação. A internet é super valorizada. Todo nosso trabalho é feito em anos de debate em escolas, universidades, Favelas, Associações de moradores e etc. Aí quando divulgamos um ato no facebook por exemplo, associam o sucesso de adesão (o ultimo que puxamos eram mil pessoas por dia) à capacidade desta rede social de “organizar revoltas” mas a única coisa boa dela é que atingimos mais gente em menos tempo. Só que se não existir uma organização por fora não vai ser uma rede social que viabilizara qualquer coisa. O que rola é uma super valorização. Organizamos tudo pessoalmente. Criar um ato numa rede social é uma das ultimas coisas, o resultado final. Nós nos reunimos com “mídia livristas” antes do ato por que sempre nos articulamos com varias frentes, como advogados por exemplo caso alguém seja preso, músicos para as palavras de ordem e atores pra performance por exemplo. E o que estes mídia livristas apontaram era justamente o monopólio dessa rede social e o quanto precisamos sair dela. Temos agora um blog. O mplrio.wordpress.com. Não vamos abandonar o facebook. Mas descentralizar é preciso.

Qual a expectativa do MPL-RJ  para o ano de 2014 no que refere as pautas dos movimentos sociais? De que maneira a realização da Copa do Mundo pode influenciar na visibilidade e influência da pauta de vocês?

Todo mundo está com uma expectativa muito grande sobre 2014 no que concerne à luta social e consequentemente uma expectativa em relação ao MPL que é um dos movimentos conhecidos que se tem, por conta das jornadas de junho. Essa copa serviu como desculpa para um aumento absurdo no custo de vida e especulação imobiliária, militarização das favelas e extermínio da população pobre e negra, desalojo de casas e ocupações de prédios abandonados por ex sem tetos, aumento no preço dos ingressos nos estádios, até mesmo o fechamento de escolas foi justificado com a copa. Com esse clima no ar recai uma responsabilidade grande sobre nós e ao mesmo tempo facilita sim alcançarmos objetivos já que as pessoas estão mais propensas à tomar as ruas novamente.

Não vamos prometer resultados, porque é impossível prever, mas vamos nos empenhar para que 2014 seja maior. Os resultados vamos ver todos juntos e melhor, fazer todos juntos.

Muito obrigado por se disporem a responder nossas perguntas, é de grande valia para nós. 

Nós que agradecemos ao seu interesse pela nossa luta e congratulamos por fazer parte de uma mídia livre.

Amanhã vai ser maior.

 Retirado daqui.

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